terça-feira, 15 de setembro de 2026

👣 Primórdios da Problemística Policiária Portuguesa »»» PPPP »»» CORREIO POLICIAL - Domingos Cabral ☝ (Re)publicação -- "CORREIO POLICIAL" de: 24.DEZ.2021 3.ª Parte PPPP - A. Araújo Pereira 🕵Problema Policial

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 *** 67.ª Edição! 🎓 📖

 

 

PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA PORTUGUESA

POR: DOMINGOS CABRAL - CORREIO POLICIAL

 

3.ª PARTE - PROBLEMAS N.ºs 17 e 18 

CICLO SECÇÃO "PROBLEMA POLICIAL"

- DE A. ARAÚJO PEREIRA 

 

*  *  *  *  *

 

SEMANÁRIO JUVENIL

“O MOSQUITO”

   


Problema N.º 17

        O inspector Rosan passava perto dum desfiladeiro talhado na rocha, quando ouviu gritos provenientes da planície que se encontrava a seus pés e viu dois homens que tentavam trazer um outro que se debatia.

        Procurou um caminho que lhe permitisse chegar perto dos contendores e não viu senão um, a 50 metros de distância, aproximadamente. Correu nesse sentido e depressa se juntou ao estranho grupo. O homem que agarravam vestia um fato azul. Os seus perseguidores trajavam, um de caçador e o outro de jardineiro.

        - Que se passa? - inquiriu Rosan.

        O que vestia de caçador, respondeu:

        - Chamo-me André Tagrat e sou o proprietário daquela vivenda lá no alto. Este homem, a quem eu dera hospitalidade, aproveitou-se de uma breve ausência minha, roubando-me oito mil escudos que eu deixara sobre a secretária. Tentou depois fugir, mas, com a ajuda do meu jardineiro corri em sua perseguição. Ele desceu o desfiladeiro, enquanto que nós nos encaminhámos pela vereda. Quando o apanhámos, revistámo-lo, mas não encontrámos os oito mil escudos; evidentemente desfez-se deles durante a fuga...

        O homem vestido de azul protestava a sua inocência:

        - É falso. Este homem atacou-me neste caminho deserto para se apoderar duma letra que eu lhe vinha cobrar... Deve-me vinte e cinco mil escudos.

        - Não sei se é verdade, respondeu Rosan, - no entanto o seu acusador mente.

        PORQUÊ?

 

***

Problema n.° 18

        - Meu caro Rosan, não há dúvida que se trata de um suicídio, - dizia o chefe da polícia, - mas não encontro a forma como a vítima se enforcou.

        - De facto, é estranho, - disse Rosan, - que profissão tinha?

        - Era carroceiro da fábrica de cerveja.

        Rosan inspecionou cuidadosamente o quarto, onde, além de um fogão de parede, que se encontrava aceso, e de uma grande poça de água no sobrado, precisamente partindo do sítio sobre o qual se balouçava o corpo do infeliz, nada mais havia. Nem o mais pequeno móvel, nenhum pequeno móvel, nada...

        De que se serviria a vítima para atingir a altura a que se enforcara?

        De súbito, Rosan exclamou:

        - Encontrei!

        E O LEITOR?

 

***

SOLUÇÕES:

Problema n.° 17:

        Se a vereda permitia chegar à planície mais rapidamente que descendo o desfiladeiro, o homem vestido de azul, que poderia escolher à vontade, tê-la-ia preferido.

        Se pelo contrário, o desfiladeiro não encurtava caminho, os dois perseguidores não o podiam ter alcançado.

        Portanto, o homem vestido de caçador mentia.  

 

Problema n.° 18:

        Facilmente se conclui que o suicida utilizara uma pedra de gelo, que com alguma rapidez se derreteu com o calor emanado do fogão que se encontrava aceso - como demonstrava a poça de água no sobrado.  

 

***

 

CONSIDERANDOS

        E continuam os problemas muito curtos, de textos pouco trabalhados, de fácil resolução (mais o segundo que o primeiro, como é obvio - e por isso a significativa diferença no número de respostas recebidas), e sem o recurso a imagens gráficas.  

 

CHUVA E LÁGRIMAS DE NATAL,

CONTO de NATÉRCIA LEITE

        Caía uma chuva intensa e gelada, mas apesar disso as ruas estavam cheias de gente e as lojas profusamente iluminadas.

        A mulher aconchegou mais o casaco ao corpo magro e levantou tanto quanto pode a gola no pescoço. Do chapéu-de-chuva escorriam torrentes de água.

        Apressou o passo furando por entre a multidão que se agitava nos passeios, nas suas compras, e pensou o quanto as suas tinham sido poucas e mais que modestas. Quedou-se depois abismada na montra duma pastelaria onde, dispostos em vários andares, os doces e os bolos eram uma tentação.

        Vinha do interior da loja um calor morno de forno e um cheiro delicado de doçaria. A mulher olhou a montra e viu aquelas maravilhas. Chamou-lhe a atenção um bolo grande, redondo, coberto de chocolate e coco ralado, que seria exactamente ao gosto de Fredie. Chocolate e coco.

        Os preços estavam marcados. Para ela eram pequenas fortunas. Há cinco anos que os Natais eram tristes e solitários com Fredie na prisão cumprindo a sua pena.

        Criara o seu filho com tanto amor e cuidados, mas desde pequeno fora uma luta constante com a sua rebeldia e revolta, com a pobreza, a vida que a mãe levava, o meio que o rodeava.

        Adolescente, tinham começado os primeiros delitos e a vida da mãe um sobressalto constante.

        Durante dias Fredie desaparecia, sumia da vizinhança. De pequenas coisas sem importância de maior, tornara-se um jovem marginal, revoltado contra tudo e contra todos - tendo por único refúgio, consolo e consideração a mãe.

        Depois da casa de correcção e da subsequente saída, Fredie parecera melhorar um pouco. Aida arranjara alguns pequenos empregos, mas onde pouco tempo se mantivera.

        Conhecera Rosie e acalmara. Rosie era doce e bonita e a mãe viu nela a salvação para o filho. Mas Rosie trocara Fredie pelo filho mais velho do penhorista do bairro e então Fredie ficara bravo de verdade.

        Foi nessa altura que Fredie se meteu com péssimas companhias, dando pequenos golpes donde vinha sempre com dinheiro. Até que deram o assalto na loja do penhorista (o que de certo modo resultara da raiva e frustração de Fredie por aquela gente).

        Assalto à mão armada, o penhorista bastante machucado, a loja escavacada.

        Dias depois tinham sido apanhados e as penas, após o julgamento, foram pesadas.

        A velha mãe chorara de meter dó e a solidão pesava-lhe de há 5 anos a esta parte como um tormento e uma culpa. Não sabia em que faltara na educação do filho, e quanto mais o aconselhava e o acarinhava mais rebelde ele lhe parecia em relação ao meio e à sociedade.

        A mulher abriu a bolsa e contou o dinheiro que possuía. No dia seguinte iria visitar o filho, levar-lhe umas pequenas lembranças e, se pudesse, aquele maravilhoso bolo de coco e chocolate.

        Entrou na loja e fez a sua compra. O bolo ficou muito bem-acondicionado numa caixa de cartão com um bonito papel de fantasia no exterior e uma fita colorida.

        Sempre que visitava o filho voltava mais esperançada. Os assistentes sociais, o psicólogo, o próprio director falavam-lhe bem de Fredie. O seu comportamento era óptimo. - quem sabe não cumpriria a pena toda...

        Trabalhava na pensão em relojoaria e tomara o gosto... Ansiava sempre pelas visitas da mãe - que o achava cada vez mais caído e mais triste.

        Ah, não poder modificar a vida, viver uma outra casa com outras condições, num outro bairro de gente ordeira e sossegada, ter um outro trabalho mais bem pago que aquele numa fábrica de cartonagens.

        A mãe preparou, temperou, cozinhou um frango. Pôs de lado a fruta da época - belas, grandes e sumarentas laranjas - o relógio barato que comprara a prestações, as meias listradas de lã fina, a caixa de cartão com o belo bolo de Natal para Fredie.

        Algures em milhares de casas haveria ceias alegres, luzes, lareiras acesas, bebidas boas jorrando. E muita luz!

        Ali era escuro, pobre, triste.

        A mãe arrumou as suas coisas e preparou-se para se deitar. Foi olhar por detrás dos vidros. Chovia ainda copiosamente. A chuva batia nos vidros e escorria. A escorrer pareciam lágrimas de um choro desfeito.

        Amanheceu triste, cinzento e chuvoso na mesma. A mãe levantou-se e vestiu o seu robe sem forma e quase sem cor.

        Estava frio no quarto. Andou de um lado para o outro arrumando coisas e preparando tudo para ir visitar Fredie - levar umas migalhas de Natal a Fredie.

        Bebeu o seu café com o pão da manhã.

        Estava pensando que o seu "menino" iria ficar encantado com o enorme bolo de chocolate e coco.

        Ainda faltavam dois ou três Natais em que passaria só e triste. Mas depois tinha fé que o seu Fredie tomasse tento na vida e enveredasse pelo caminho do bem e duma vida normal.

        Enquanto dava as suas voltas pela pequena casa que procurava manter limpa e tanto quanto possível acolhedora, as lágrimas corriam pelo rosto da mãe.

        Nos vidros, de igual maneira escorria o pranto.

        Tocam à porta. Quem será? No dia de Natal, no caso desta pobre viúva? Abre. É o seu Fredie - o seu Fredie que vem com redução de pena, que a abraça e levanta ao ar - que mistura as lágrimas com as dela.

        Ainda está aparvalhada. Tonta, nem quer acreditar!

        O filho coloca-a no chão, olha-a muito sério, afaga-lhe a face.

        Milagre de Natal - pensa a mãe...

        Natal de Paz e Alegria, com bolo de chocolate e coco.

        E cai chuva, escorre chuva, escorrem lágrimas de felicidade.

 

  


 



DOMINGOS CABRAL DA SILVA

 »»» Publica-se aos dias 15 e último de cada mês! «««  

 

 

Saudações Policiárias

2 comentários:

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