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CAPÍTULO DEZ
"Zid Ashashi Bashshi Tafaddal Adni Surra Sili"
De: A. Raposo
“zid ashashi bashshi tafaddal adni surra sili”
Exclamou Tempicos extasiado perante aquele pôr de sol no deserto de Gobi. À sua volta o sepulcral silêncio dos desertos. Uma cor de areia que lhe fazia lembrar o saudoso vinho branco com sabor a rolha. Porém, as suas palavras eram dirigidas à Mary Lou que, diante dele, não percebera patavina.
Nada de admirar, pois, ela fora especialista em línguas mortas. As línguas de Allah não lhe diziam nada. Tempicos não se preocupou, pois, sabia que os seus melhores e fiéis leitores eram fans da iliteracia e daí ser obrigado a traduzir a frase que dissera a Mary Lou com a sua voz baixa e roufenha de H. Bogart, no filme “Casablanca”.
“CONTRIBUI, RI, EXULTA, OFERECE, PRATICA O BEM, ALEGRA-TE, DÁ”
Se havia menina que seguia fielmente os ditames desta frase essa menina era a Mary Lou. O que ela adorava dar: era uma autêntica esmoler dos pobres. Tudo o que tivera dera. Umas mãos rotas.
Para si guardara a “Apus, apus”. O seu andorinhão preto, ave em extinção que ela protegia e que era linda pois tinha uma fofa penugem cor de azeviche. A águia do Benfica – apesar de colorida – ao pé da sua avezinha ficaria envergonhada.
Porém, Tempicos levara a Mary Lou para lá do espaço e do tempo pois transportara-a para o século XXV. Tempicos adquirira a Mary Lou na loja da sua rua, do Chinês, pois estava à venda como o “clone” da sua irmã Nelinha. Ainda por cima “balato”!
Não perdeu tempo. Foram os dois até Santa Apolónia e tomaram o transiberiano, com relativa facilidade. Hoje em dia todos os caminhos vão dar a Roma! Pararam em Omsk para comprar um quarto das Pedras e acabaram por descer em Irkutsk. Daí foi um pulinho até ao deserto de Gobi.
Uma mochila era toda a bagagem que recolhia uma tenda de campismo. Nada mais era preciso. “Nesta altura do campeonato é preciso avisar os leitores do que se estava a passar na cabecinha do Tempicos. Ele queria levá-la até ao deserto para lhe cantar a canção do bandido”…
Queria aproveitar-se do ambiente. Da melodia que Tempicos trauteava: “o voo do moscardo” de Rimsky Kossaskostas. Do calor, para fazer a Mary Lou vergar ao peso dos argumentos. Da sua proverbial lábia. Sabemos com o a carne é fraca, a vida é curta e os momentos de prazer escassos. Pois temos que os aproveitar enquanto abundam.
Mary Lou só com esta encenação já estava meio zonza e já não sabia se o calor vinha do deserto ou se era ela que acalorava as areias. Armou-se a barraca, caiu a noite. Os dois personagens, o quarto das Pedras, o andorinhão entraram no vestíbulo do amor, ou seja, a tenda.
Através da fina cobertura da “barraca” Mary Lou e Tempicos observavam as estrelas.
- Olha que luminoso cometa! – Exclamava Mary Lou.
- Lá vem a lua cheia iluminar a nossa felicidade! – Dizia Tempicos imitando Bogart.
E assim passaram a noite entre o pecado e a luxúria, entre o quarto das Pedras e o andorinhão e uma olhada ao Céu. Diz-se, como moral da história que a Mary Lou viu as estrelas muitas vezes.
Quem somos nós para duvidar…
👌 FELIZ Domingo!
📔BOAS Leituras!









