🧐 🕵️ Primórdios da Problemística Policiária Portuguesa...👣👣 🔍
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PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA PORTUGUESA
3.ª PARTE - PROBLEMAS N.ºs 13 e 14
CICLO SECÇÃO "PROBLEMA POLICIAL"
- DE A. ARAÚJO PEREIRA
* * * * *
SEMANÁRIO JUVENIL
“O MOSQUITO”
Problema N.º 13
Enquanto o guarda se afastava, um visitante cortou a tela de um dos mais valiosos quadros do Museu e, saltando pela janela, tomou lugar num automóvel que o aguardava, desaparecendo sem que ao menos houvesse tempo para anotar o número da matrícula – disse o director do museu ao Inspector Rosan.
- E não tocaram em coisa nenhuma depois do furto? – perguntou Rosan.
- Não, absolutamente em nada. Apenas o guarda me avisou fiz evacuar o museu, para que se pudessem procurar possíveis impressões digitais deixadas pelo criminoso.
- Quando deu pelo furto? – perguntou Rosan ao guarda do museu enquanto observava o parapeito da janela por onde o ladrão teria fugido.
- Tinha percorrido a galeria onde se encontrava somente um visitante e continuei a ronda da galeria seguinte, como de costume. Um grupo de estudantes dirigiu-se-me nesse momento, pedindo informações.
- E voltou à galeria quanto tempo depois?
- Talvez cinco minutos. Vi ainda o homem saltar pela janela, e precipitar-se para o automóvel, que partiu veloz. Avisei então o sr. Director.
- Fez mal, - disse Rosan.
E abrindo a janela debruçou-se.
- A que altura se encontra esta janela? Perguntou.
- A 8 metros.
- Um pouco alta para que um homem salte por ela; todavia é possível. Em todo o caso, o guarda do museu é um cúmplice e prendo-o como tal.
Porquê?
***
Problema n.° 14
- Acredita que Luís Gandoli seja o autor da morte do tio? – perguntou Rosan ao chefe da polícia secreta.
- Sim, se acreditarmos no depoimento de uma importante testemunha, que afirma tê-lo visto esta manhã. São oito e meia. O homicídio foi praticado às seis. Uma vizinha pretende ter visto entre as seis e as sete horas o automóvel de Luís parado defronte da casa onde morava o tio. Diz essa vizinha que até nesse momento caiu uma chuva violentíssima que a obrigou a recolher-se, fechando rapidamente a janela.
- Vamos interrogar o rapaz – disse Rosan.
Encontraram-se em frente da porta da casa onde habitava, entretido a reparar o automóvel.
- Sabe que seu tio foi assassinado esta manhã?
- Sim, sei. Estou até tentando arranjar o carro para me dirigir a casa de meu tio. Vou cumprir esta formalidade, para salvaguardar as aparências, pois estávamos de relações cortadas há oito dias.
- Sobre si recaem muitas suspeitas, - tornou Rosan. Uma vizinha viu, esta manhã, esse carro parado diante da casa de seu tio e também o viu a si.
- É falso – protestou Luís – pois que o meu carro desde ontem à tarde que não sai deste sítio. O cárter está roto e derrama óleo. Queira fazer o favor de inspecionar o carro e verificar o que afirmo.
O Inspector deitou-se debaixo do carro, no terreno húmido da chuva, constatou a avaria e disse:
- É verdade. De facto, perde muito óleo, mas o senhor utilizou o carro esta manhã. Portanto mentiu.
Que constatara o Inspector?
***
SOLUÇÕES:
Do problema n.° 13:
O criminoso não teria podido fechar a janela depois de ter saltado, visto que a altura era aproximadamente de 8 metros.
A janela fora fechada pelo guarda do museu, que era seu cúmplice.
Do problema n.° 14:
Se o automóvel não tivesse saído, como Gandoli afirmava, o terreno debaixo do carro estaria seco.
***
CONSIDERANDOS:
Os problemas de hoje, só de texto, são de muito fácil resolução, ao alcance de qualquer leitor atento. De resto, o muito curto tamanho dos problemas, a sua (na maior parte das vezes) simplicidade de resolução, e muitas vezes também a fragilidade e pouca consistência das soluções oficiais apresentadas, constituem a principal característica desta série que "O Mosquito" nos ofereceu. Ficam, qualitativamente, muito longe dos que actualmente se produzem, mas não podemos deixar de ter em conta que remontam ao início da década de 40, quando a problemística policiária dava os seus primeiros passos...
***
O POLICIÁRIO
Por: LUÍS PESSOA
O termo Policiário foi desenvolvido pelo “Sete de Espadas”, a partir da designação que foi dada por Fernando Pessoa que em carta escrita ao seu amigo Adolfo Casais Monteiro referia que estava a trabalhar numa novela policiária, supostamente “O Roubo na Quinta das Vinhas”. Esta carta, datada de 13 de Fevereiro de 1935, foi o ponto de partida para a designação do nosso passatempo. E bom que fiquemos já cientes que o crime que mais nos interessa não é o que referimos atrás, como o circunstancial, como reactivo, como “químico”, mas sim aquele que é planeado, estruturado por um cérebro o mais brilhante que for possível.
Também é bom que percebamos que a nossa actividade é levada muito a sério por todos nós, ou seja, mesmo tratando-se da decifração de enigmas ficcionados, de forma lúdica, essa decifração obedece a todas as regras de uma investigação real.
Finalmente, nem tudo se passa em redor do crime. E possível e muitas vezes acontece, haver desafios onde a actividade criminal não está presente, por exemplo, pedir-se aos detectives que descubram qual foi a criança que comeu o bolo que não era suposto ser comido, ou qual dos empregados cometeu um erro numa encomenda, ou qual foi o aluno que pregou uma partida a um professor, etc.
FERNANDO PESSOA,
SEMPRE ELE...
Reparem só num pequeno extracto da novela de Fernando Pessoa, já referida, “Os Roubo da Quinta das Vinhas” para termos uma ideia daquilo que a ferramenta Policiária nos pode “ensinar” para a vida:
Diz o Dr. Abílio Quaresma, o investigador de Pessoa, a dado momento:
“Um exemplo: passo por uma rua e vejo um homem caído no passeio. Instintivamente me pergunto: porque é que este homem caiu aqui?
Já aqui vai um erro de raciocínio e, portanto, uma possibilidade de erro de facto. Eu não vi o homem cair ali. Vi-o já caído. Não é, portanto, um facto para mim que o homem caísse ali. O que é um facto para mim é que ele está caído ali (...) Creio ter-lhes mostrado bem como é complicado o que parece tão singelo. É preciso, em qualquer problema, separar cuidadosamente, logo no princípio, os dados e as conclusões...”
Mais claro, não podia ser...
O Policiário coloca cada participante perante as várias situações possíveis, ou seja, como vítima, como testemunha, como suspeito, como criminoso e como detective. Portanto, o criador do enigma tem que juntar todos os intervenientes, colocar cada qual no seu lugar, estudar e planear a cena onde se desenvolve a acção, deixar os indícios que conduzam à decifração, apontando a um único culpado e ilibando os restantes.
Ao decifrador cabe interpretar os elementos que lhe são fornecidos e chegar a um resultado lógico.
É nesta lógica que reside, em grande parte, “a ferramenta”. O policiarista confronta-se, a todo o momento, com a lógica das ilações que vai retirando dos factos que lhe são apresentados, desenvolvendo, portanto, uma cadeia lógica de raciocínio, que vai poder aplicar na sua vida.
Não é por acaso que as pessoas mais capazes de ler, interpretar, encadear logicamente os dados fornecidos, retirando as ilações necessárias, ficam muito mais apetrechados para a sua vida pessoal e profissional, conseguindo dar respostas mais rápidas e certeiras às questões e constrangimentos que surjam.
Aí, o Policiário assume-se como uma ferramenta importante.
***
"UMA BRINCADEIRA... COM CABEÇA"
Há histórias engraçadas, jocosas, muito falaciosas, sobre testemunhas e ilusões, como por exemplo a de um crime que é cometido e há duas testemunhas que juram que viram o criminoso. Quando chega o momento da identificação, os dois apontam um certo indivíduo, sem reservas. Já no julgamento, ambos são taxativos na identificação, mas então aparece um irmão gémeo do suspeito, igualzinho! As testemunhas hesitam, não conseguem apontar qual deles viram no local do cri-me...
Problema insolúvel? Nem por isso, para o juiz, que ordena a reclusão de ambos e retoma o julgamento duas semanas depois. Nessa audiência, um dos manos aparece gordo e anafado, rosado, respirando saúde, enquanto o outro está enfezado, magríssimo...
O juiz não tem dúvidas: manda libertar o gorducho...
A conclusão é simples: “o que não mata, engorda!”

DOMINGOS CABRAL DA SILVA
»»» Publica-se aos dias 15 e último de cada mês! «««

Saudações Policiárias


