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De: Arnes
Regresso de um passado nunca esquecido. -Arnéss, Arnéss - entrou cozinha dentro Frau Jeremien como um furacão – Viste o Joseph, preciso urgentemente que me leve à cidade, para me encontrar com um velho amigo que está por cá de visita à “belle France”. Arnéss figura frágil e doce, não tinha acordado nos seus melhores dias. Tinha sonhado que subia a serra do Caramulo ao lado do seu amor de juventude no seu Alfa Romeu e este entre curvas e contracurvas, lhe ia metendo as mudanças. Primeira, segunda, terceira e quarta (naquela altura era as que havia) e não se cansava. Acordou esbaforida e mal disposta, afinal...era mesmo só um sonho. Arrefeceu as entranhas, mas uma fúria pouco habitual foi tomando conta dela. Contrariamente ao seu costume, respondeu de forma ríspida.
– Frau Jeremien, com esse sotaque arrastado, nem és “chat” nem “chien”. Tu para mim vens de carrinho, já te topei faz tempo. Dei-te uns copitos de Cabeça de Burro bem fresquinho, e foi ver-te a desfiar as aventuras, nas Beiras e nos Centros. Até dançaste o corridinho e o tango enquanto te arrastava para a cama. No dia seguinte só dor de cabeça, não te lembravas de nada, mas tudo que me contaste...isso, isso ainda me há-de ser útil um dia. Para começar, deixas esse ar de galinha emplumada sempre que te diriges a mim e se queres o Joseph, procura-o, sou cozinheira, não sou cão pisteiro de ninguém.
F. J. conforme ia ouvindo, as faces iam ficando rubras, os olhos iam inchando de raiva, mas manteve a postura, disse algo inaudível aos ouvidos de Arnéss, virou costas e saiu tão rápida como entrou.
Arnéss sentou-se e colocou a cabeça entre as mãos. Tinha vindo para o castelo como cozinheira do Marquês, ao qual dedicava verdadeiro afecto e dedicação. Era mais que a cozinheira, pois era na cozinha entre um chá feito de ervas naturais, que o Marquês tirava a sua capa e despia a alma. Mas o destino pode ser cruel, padrasto mesmo e reservou-lhe uma surpresa, da qual não estava à espera. Quando voltou de umas merecidas férias, encontrou o Marquês casado, com uma flausina que metia medo a um susto. Disfarçava as "trombas" com pó de arroz que gastava em doses cavalares e lá ia escondendo as rugas e as marcas das bexigas. Aproveitava-se da doença do marido, para lhe colocar umas armações, que fariam corar os veados do bosque circundante. Só se preocupava com roupas, cabelos, joias e festas deixando o Marquês abandonado dias e dias a fio. Arnéss quando a via posar pelo castelo para a "Carras Francesa", com os seus agasalhos em pele e as suas jóias sobrepostas umas nas outras, que mais parecia um expositor de uma ourivesaria, pensava em como ficaria bem um casaco de tábuas àquela sirigaita, sem berço, sem classe e sem vergonha. Mas o verdadeiro golpe ainda estava para vir. Os patrões foram de viagem a Itália e voltaram com a enfermeira F.J., um calmeirão que se dizia Alemã, mas para ela que tinha passado uns anos na Alemanha, era preciso mais que um carregado sotaque para a enganar, com um belo carro vermelho e...ele. Sim ele, o homem que tinha mostrado a Arnéss todas as linhas da vida, todos os prazeres e delírios a uma menina apaixonada. Jovem, inexperiente e cheia de sonhos, imaginava o dia que o amado acabasse o curso, fosse um mal pago, mas honesto professor e juntos ficassem numa casinha à beira-mar, onde pudessem ouvir o sussurrar das ondas enquanto viam o pôr-do-sol com os corpos entrelaçados. Mas o sonho, tornou-se num pesadelo. Uma verdadeira tormenta chegou no dia em que ela se preparava para lhe dar a novidade. Sim uma nova que tinha guardado por umas semanas, mas não o podia fazer mais. Nesse dia, Joseph (então Zé) chegou eufórico, quase histérico, disse-lhe de rajada: – Concretizei um sonho, vou trabalhar para a fábrica de Maranello, nunca me senti tão feliz, parto amanhã mesmo para Itália. O mundo caiu-lhe nos ombros, a mágoa silenciou-a. “Parto”, disse ele, nem por momentos equacionou partirem juntos, nem lhe perguntou se queria ir com ele, logo a ela que lhe tinha dado o melhor da sua essência. O amor que sentia parece ter sido substituído por um ódio visceral e só lhe disse:
– Parabéns, que sejas muito feliz na tua nova vida.
Virou costas e afastou-se para que ele não visse as grossas lágrimas que lhe corriam pelas faces. Ele nem tampouco a chamou, deixou-a ir e foi a última vez que se cruzaram. Até ao dia que o viu chegar ao volante daquele carro pequeno, com a patroa no banco ao lado...
Não a reconhecera, muito embora achasse que lhe lembrava alguém. Tinha-lhe falado uma vez na Lina, (nome pela qual ela era tratada na juventude) enquanto comia um saboroso e tenro polvo à lagareiro, feito com azeite dos planaltos de Portugal. Nesse dia dissera, que conheceu na juventude, uma miúda que também o fazia magistralmente. Arnéss, ou melhor Lina, tinha sido resumida a uma lembrança de tentáculos.
– Arnéss, Arnéss, sentes-te bem?
Arnéss levantou os olhos e à sua frente estava um preocupado Anadrá. Sabia que ele tinha tido um fraquinho por ela, mas o seu coração estava fechado a sete chaves. Seria melhor, não lhe criar nenhum tipo de ilusão. Era um pouco mexeriqueiro e tinha a mania da perseguição, achando sempre que todos tinham razões para lhe fazer mal, mas no fundo era um bom homem se bem com uns hábitos um pouco estranhos e uma imaginação muito fantasiosa. Muito prestável, o que em Portugal se chamava de pau para toda a obra, também ele vivia amargurado pela recordação de um amor de juventude. Tentou recompor-se e disse-lhe:
– Tudo bem, é só uma dor de cabeça, mas ainda bem que apareces, pois preciso pedir-te uma coisa, já que és um “expert” no assunto. Amanhã ao almoço quero fazer bifes com o meu famoso molho de champignon. Fazes-me o favor de ir ao bosque, apanhar uma cesta dos selvagens, pois estamos na melhor altura para os colher.
A Patroa, a Frau J e o Joseph, gostam tanto, que até se esquecem dos bons modos e rapam o prato – continuou Arnéss quase como se falasse para si própria – Para o Marquês e a Katinha, que não podem comer cogumelos, farei um molho com umas ervas aromáticas que é uma delícia e assim todos ficarão contentes.
Anadrá com um estranho e pouco habitual brilho no olhar respondeu:
– Os teus desejos são ordens para mim e considera feita a minha parte, para que amanhã o almoço seja um divinal repasto. Quanto às tuas dores de cabeça, se calhar era melhor deixares de receber no quarto quem só anda em círculos e não consegue meter a primeira, para entrar na garagem.
Sem lhe dar oportunidade de resposta, Anadrá saiu entre risinhos abafados.
O telemóvel de Arnéss tocou, ela olhou-o e atendeu.
– Estou, padre Novenat, a sua bênção.
– Deus te abençoe minha filha, liguei para saber se finalmente falaste com aquele pecador, desencaminhador de donzelas e mestre em fornecer armações - perdoe-me Pai esta linguagem, mas aquele homem tira-me da habitual Santidade - Disse o pároco entre dentes, coisa que Arnéss por educação fingiu não ouvir.
– Não. Ontem foi ao meu quarto como faz tantas vezes e a cena repetiu-se. Anda por lá às voltas, senta-se, mais uma volta e vai desfiando os seus problemas, as suas angústias. Vai dizendo que se sente cada dia mais fraco, que não sabe se tomou a melhor atitude em vir para o Castelo e lá me vai confessando o que nem a vossa excelência confessa. Conta os passeios que dá com a Madame e as viagens às compras que faz com F.J. Diz que se sente bem junto a mim, que sente uma paz muito grande quando está no meu quarto, pois sou a única que não quer tirar-lhe “forças”. Mal sabe o desgraçado que foi ele que me comeu o “file mignon” e me reduziu ao osso duro de roer, que hoje sou…Vou adiando e começo a achar que nunca lhe contarei Padre. Confesso ter um pouco de receio pela forma como reagirá. Lembro-me que certo dia descobriu, que um amigo o tinha enganado num negócio de carrinhos de colecção e não fosse, outros amigos segurá-lo, temo que nesse dia ele se tivesse tornado um assassino. Vou continuar a ser sua confidente, assim sempre vou observando os “apetites” que ainda possa ter, muito embora enfraqueça de dia para dia.
– Filha, tens que lhe dizer, tens que lhe dizer, antes que uma tragédia muito maior se abata na tua vida. Ou lhe dizes, ou o afastas para sempre seja de que modo for. O Senhor vai ajudar-te nessa missão minha filha. Ah, e já agora também te quero dizer, que conta comigo para almoçar amanhã.
Arnéss ia dizer algo, mas uns braços pequenos e quentes embrulharam-na num abraço, fazendo com que ela se despedisse rapidamente e desligasse o telefone. Era Katinha, uma menina que veio passar uns tempos ao castelo. Menina meiga e muito dada a afectos, por vezes mal interpretados pelos “gabirus” que coabitavam no Castelo e pelas más-línguas de quem por lá servia.
Arnéss parecia ter sido inundada pelo sol e uma doçura encheu-lhe as faces, levantou-se e retribuiu o abraço e beijou aquelas faces rosadas e cheias de vida. Recomeçou as suas lides habituais enquanto pelo canto do olho, observava Katinha, que estava com ar sonhador, a olhar pela janela. Perguntou-lhe:
– Então minha princesa, que vai fazer hoje?
– Sabe, o Joseph, tem algo que me fascina. Estou a pensar pedir-lhe que sele a égua Alfa e o cavalo Romeu e me leve a cavalgar por entre os bosques, serpenteando o monte que se avista daqui.
– Nãooooo!! - Gritou Arnéss deixando escapar de entre as mãos o monte de pratos Limoges da colecção particular da “madame” que tinha acabado de pegar para colocar na pia. Centenas de estilhaços espalharam-se pelo chão da cozinha.
👌 FELIZ Domingo!
📔BOAS Leituras!















