Leitores fiéis desta novela
Lembram-se das cenas iniciais do filme Amadeus, que
retratava a vida de Mozart? Pois essas cenas mostravam o maestro António
Salieri, grande rival de Mozart, internado num hospício de loucos em Viena a
confessar-se a um padre. Na sua confissão ele imortalizava o génio de Mozart,
ao mesmo tempo que se considerava a si próprio como um músico vulgar que compôs
umas musiquitas apenas. Não foi um inimigo de Mozart apenas tinha ciúmes do
músico de Viena.
Pois, amigos leitores, façam um exercício virtual e
imaginem o sacristão Anarda deitado em transe na cama do seu quarto do Castelo
de Chamborg, a solicitar a presença do cónego Novenat e a pedir-lhe que o
ouvisse em confissão.
– Padre, quero confessar-me.
– Filho, a misericórdia de Deus é infinita e qualquer
que seja o pecado que cometeste, desde que seja sincero o teu arrependimento,
Ele perdoar-te-á.
– O padre sabe que no Castelo de Chamborg coabitam
várias mulheres e eu, que devia manter-me como um serviçal honesto, leal e fiel
para com os meus amos, procedi como um luxurioso e cúpido desejei aquelas
mulheres, povoando os meus pensamentos de sórdidos actos de erotismo bacoco e
de libidinosidade.
Desde muito novo fui sempre um rapaz chanfalhão e
alegre, tipo conquistador do belo sexo. Tinha atributos físicos e jactância
suficiente para o efeito. Conheci a Madame de Chamborg muito antes dos
acontecimentos já descritos. Era ainda a portuguesinha beirã Maria Pontes. Sem
nos comprometer mantivermos uma relação licenciosa, saudável e sensual.
Desejosa de singrar na vida, Maria Pontes resolveu
assentar arraiais em
França. Levou-me com ela, mas já num estado diferente para
com a minha pessoa. Eu só a acompanhava porque ela tinha pena de mim. Na
previsão de arranjar uma boa vida ela dar-me-ia uma ajuda. Conheceu o Marquês
de Chamborg – o gaipo mais tosco deste planeta – casou com ele, transformou-se
na Madame de Chamborg. Ao ver a figura apalermada do Marquês eu tive a
presunção de que voltaria a ter a minha Maria Pontes enroscada nos meus braços
e na minha cama. Puro engano, tremenda desilusão para mim. Ela arranjou um
motorista, tipo John Travolta, que depressa a conquistou e lhe metia na boca
chocolatinhos que se lhe derretiam ao entrar na boca dela e a parte líquida
escorria-lhe para os beiços. Isto dava-lhe um imenso prazer e o motorista
andava nas nuvens. Definhou e ela aprimorou-se.
Arranjei uns binóculos e constatei que o motorista não
avançava com o Ferrari para o caminho certo, pois não passava de só lhe meter
na boca os bombons achocolatados. Um dia passei-me e disse-lhe na cara que
“Deus dava nozes a quem não tinha dentes”. Ameaçou-me de morte se eu contasse
alguém o que era a relação dele com a Madame e o que fazia com ela na
intimidade. Melhor, o que ele não conseguia fazer. Depois da ameaça que me
dirigiu, sinto que posso ser alvo dalguma perfídia para com a minha pessoa por
parte do motorista. De certeza que ele desabafou com a Marquesa porque
imediatamente ela me promoveu a sacristão do castelo, só para eu ter o sentido
de ter uma vela (grossa) na mão quando eu acolitasse as missas dominicais.
Assim eu podia arranjar algum gosto esquisito e deixar de pensar nela.
Depois apareceu no Castelo a bela e doce Arnéss. Para
mim foi uma estrela que despontou no meu firmamento amoroso. Quase que lhe
lambi os pés, mas ela deu-me com os mesmos para trás. A causa era porque ela
andava apaixonada pelo traste do John Travolta de volante nas mãos. Mas o John
Travolta não tinha arcaboiço para a Madame muito menos para a doce Arnéss. Os
meus binóculos entraram em acção e o que eu via proporcionava-me dois
sentimentos díspares ao mesmo tempo. Por um lado, revoltava-me porque a Arnéss me
fugia e por outro lado ria-me bastante porque o John Travolta tinha um volante
portátil e andava às voltas no quarto a fingir que arrumava o Ferrari, mas
nunca conseguia entrar na garagem. A Arnéss meneava a cabeça de um lado para o
outro. Travolta duma figa que não sabia meter as mudanças.
Claro que dei com a língua nos dentes e novamente o
motorista ameaçou-me de morte, agora numa acção concertada a dois. Ele e a
Arnéss.
Os meus devaneios amorosos falhados prosseguiram agora
na pessoa de Frau Jeremein. Confesso que não fazia o meu tipo devido a que era
uma intelectual que em tudo punha um rigor que não se coadunava com aquilo que
eu pretendia da sua pessoa. E quando uma vez vi o marquês a fugir dela com as
calças despidas na mão e Frau Jeremein com uma seringa para lhe espetar no “sim
senhor”, seringa mais apropriada para doses cavalares, tive medo e resolvi
deixá-la em paz. Mas
era curioso e os meus binóculos começaram a espiá-la. E, tinha de ser, lá
descobri que a “alta senhoria” era íntima do John Travolta dos Ferraris. Ela
bem se esforçava para que ele fizesse as suas obrigações naturais, mas o magano
estava sempre a consultar o…como se estivesse a participar no Rally das
Camélias. O John Travolta dos piões e das ultrapassagens a 200 à hora andava
desconfiado e foi apanhar-me a espreitá-lo com os binóculos, com a agravante de
eu estar todo nu em local estratégico. Foi uma vergonha que me fez e novamente
surgiu uma ameaça de morte.
Katinha Vanessa foi, para surpresa minha, aquela mulher
residente no castelo de Chamborg que realmente estava em condições para me
amar. Bonita, amorosa, solidária, despertava paixões em todos os homens que com
ela convivessem de perto. Nos meus pensamentos encarei a possibilidade de ter
um romance de amor com esta beldade. Depressa verifiquei ser impossível. Eu não
sabia a proveniência dela, mas ela sabia quem eu era. Eu tinha um tio de nome
Onaírda que tinha tido um ardente envolvimento amoroso com sua mãe Nelinha da
Purificação. Erotismo e paixão nos seus encontros, regado muitas vezes com
muitos copinhos de jeropiga do Ti António da Corujeira – este magano está
sempre a bater no mesmo – com os olhares cúmplices de uns ratinhos anões,
branquinhos, que viviam naquela sua adega de Sintra. No entender de Katinha
Vanessa isto não causava estorvo à nossa ligação, mas o senhor Padre Novenat
adivinhou as nossas intenções e ameaçou excomungar-nos se as nossas intenções
se materializassem. Depois verifiquei que o senhor padre a queria confessar no
seu quarto. Ostracizei-o deveras. Que Deus me perdoe!
E assim acabou desta forma a possibilidade de ter este
novo amor. Cheguei a apostrofá-lo a si senhor padre. Mas temente a Deus, passei
uma esponja sobre o assunto. Pensei em dar-lhe um fim, a si senhor padre, para
que desaparecesse do Castelo de Chamborg. Mas não fui capaz de o fazer. Neste
caso não pequei por actos, mas por pensamentos iníquos para com um servo de
Deus tão respeitado e tão exímio em fazer confissões.
Por tudo isto peço a sua absolvição dos meus pecados
para poder partir para outras paragens nas graças do Senhor.
– Nada mais tenho a confessar, senhor padre.
O cónego Novenat ouviu todo este arrazoado em silêncio. Pensou
para com os seus botões que sacristão tão aparvalhado. A pensar que pode ser
vítima de um crime violento, quando os pecados dele são muitos pequeninos
comparados com os dos restantes residentes neste Castelo de Chamborg. Até eu
tenho muito maiores pecados do que ele e nem sei se não serei eu a vítima desse
anunciado crime E se houver um crime a ser cometido todos nós estamos sujeitos
a ser o alvo do criminoso.
– Vai meu filho descansado, levanta-te desta cama,
volta aos teus afazeres no Castelo. Estás perdoado por Deus e por este seu
representante na terra. A propósito: prepara-me uma boa “sandocha” de torresmos
e uma gasosa fresquinha.

🔎 VOLTAREMOS na PRÓXIMA SEMANA, DIA 19 de JULHO, COM A DIVULGAÇÃO do CAPÍTULO
CINCO "Regresso de um Passado Nunca Esquecido", De: ARNES.
👌 FELIZ Domingo!
📔BOAS Leituras!