🧐 🕵️ Primórdios da Problemística Policiária
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*** 66.ª Edição! 🎓 📖
PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA
PORTUGUESA
POR: DOMINGOS CABRAL - CORREIO POLICIAL
3.ª PARTE - PROBLEMAS N.ºs 15 e 16
CICLO SECÇÃO "PROBLEMA POLICIAL"
- DE A. ARAÚJO PEREIRA
* *
* * *
SEMANÁRIO JUVENIL
“O MOSQUITO”
Problema N.º 15
- Conte-me o que se passou, - disse
Rosan ao guarda do grande armazém, que fora assaltado na véspera e donde tinham
furtado importantes mercadorias.
- Ontem, pelas 8 horas, acabava de
jantar, quando fui assaltado pelas costas, sem que tivesse podido ver os meus
assaltantes. Colocaram-me sobre o rosto um lenço embebido em clorofórmio e só
hoje recuperei os sentidos. Ao acordar, vi que muitas mercadorias tinham
desaparecido e apressei-me a telefonar-lhe.
- Mas não ouviu nenhum barulho antes de
ser atacado?
- Sim, mas não fiz caso. Como lhe disse
estava a jantar.
O Inspector Rosan, entretanto,
examinava o local e pegando no lenço, que se encontrava ainda húmido de
clorofórmio, disse:
- E não reconheceu as vozes daqueles
que o assaltaram?
- Não, não reconheci nenhuma voz.
- Mesmo que reconhecesse não o diria
pois você é um cúmplice dos bandidos e considere-se preso.
Que
induziu o Inspector Rosan a tal conclusão?
***
Problema n.° 16
O Inspector Rosan fora chamado com
urgência à aldeia X, onde se encontrara, num lago, o cadáver dum indivíduo.
Nos seus bolsos foi encontrado um papel
em que laconicamente se dizia:
Suicidei-me. Ninguém é culpado da minha
morte. J. Praxedes.
Rosan analisou atentamente o pequeno
fragmento de papel. A escrita era perfeitamente legível, embora estivesse
estado dentro de água durante algumas horas.
- É curioso, - disse Rosan, - tragam-me
os objectos encontrados nos bolsos do cadáver.
Rapidamente foram colocados sobre a
mesa os seguintes objectos:
Uma boquilha, uma caixa de fósforos, um
maço de cigarros, uma carteira, um molho de chaves, um lápis de tinta, dois
lenços, um bilhete de identidade e um canivete.
Depois de percorrer com um atento golpe
de vista todos os objectos, Rosan, disse: - Este homem não se suicidou, foi
assassinado.
PORQUÊ?
***
SOLUÇÕES:
Problema n.° 15:
Se o guarda tivesse sido cloroformizado
na véspera, o lenço estaria completamente seco, pois o clorofórmio é muito
volátil.
Problema n.° 16:
Se a escrita está legível não tinha
sido feita com o lápis da vítima, pois este era de tinta e a permanência dentro
de água tornaria o bilhete ilegível.
***
TEMA – LITERATURA POLICIÁRIA
EVOLUÇÃO DAS TÉCNICAS NARRATIVAS
- QUEM COMETEU O CRIME?
É a narrativa policiária literatura ou jogo? A forma romanceada
como nasceu na segunda metade do século XIX não dá lugar a dúvidas.
Manifestamente literatura – e literatura de alto nível, como o tempo e os
autores consagrados se encarregaram de mostrar – lida e apreciada sob o ponto
de vista lúdico e exercício de raciocínio e saber. Naturalmente que se
verificaram temporalmente alterações à técnica narrativa, essencialmente três
divisões capitais, que acompanham as sistemáticas perguntas ante o crime: Quem? Como? Porquê?
A primeira palavra que se aplica à
identidade do criminoso, pergunta: Quem foi? Isto é, quem cometeu o crime? É a
mais antiga, a mesma proposta pelo fundador inicial: Edgar Allan Poe.
***
Como
foi cometido o crime?
O segundo processo da técnica da
narrativa policiária – para nós a primeira, visto que a primeira já referida
não é evolução, pertence a Poe, criador do género – está ligado ao modus
operandi do ilícito criminal, isto é, Como foi cometido o crime? A pergunta é talvez
mais abrangente do que a idealizada pelo autor da inovação, R. Austin Freeman, que no prefácio do livro The Sing Bone (1912),
depois de considerar equívoca a sacramental pergunta de “Quem foi?”,
normalmente esclarecida nas últimas páginas da narrativa, e não satisfaz tanto
o interesse do leitor “Como se chega ao conhecimento do delinquente?”. O
processo de Freeman ganhou juízes e continuadores, servindo mais tarde para o
aparecimento de novos processos narrativos.
***
Porque foi cometido o crime?
Este terceiro processo
narrativo apoia-se no “porquê?”. Ou porque foi
cometido o crime? O que o liga à motivação do delito. Já sabemos quem, como, falta-nos o porquê. Algo tão importante porque a descoberta da razão
do crime, é meio caminho andado para se encontrar o criminoso. É, de resto, o
processo mais escolhido pelos autores actualmente. Em estudos de policiário já
tivemos ocasião para referenciar Anthony Berkeley Cox, com o pseudónimo Frances
Iles, como o pioneiro do sistema que aborda o processo psicológico.
***
A MÁSCARA,
Conto por PEGGY MORROW
Dez notas de mil dólares novinhas, livres de tiras
de plástico, lentamente colocadas soltas sobre o arranhado campo de vidro da
escrivaninha do Dr. Raymond Bennet.
Gotas de suor surgiram na testa e no
lábio superior do médico.
Dois minutos esgotaram-se antes do
médico falar. Os olhos desviaram-se do dinheiro e fixaram-se nos frios olhos
cinzentos do homem no lado oposto da mesa.
- Não, - disse o médico. Não posso
fazer isso.
O visitante da meia-noite levantou-se.
O seu impassível corpo esguio lembrava o de uma serpente.
- Certo, doutor, se não quer, não faça.
Os meus argumentos esgotaram-se e isso é algo que nem mesmo um revólver pode
obrigar a fazer.
Ele retirou as mãos enluvadas dos
bolsos do sobretudo; a direita segurava uma automática.
- Só por questão de segurança, vou
amarrá-lo à cadeira e amordaçá-lo. E cortar os fios do telefone.
Na manhã seguinte, o sono abandonava
aos poucos a mente de Myra Bennet.
Virou a cabeça no travesseiro para
acordar o marido com alguma palavra amarga. Sentou-se bruscamente. A cama ao
lado estava intacta! Vestiu o robe.
Procurou pela casa e encontrou o marido
como o pistoleiro o tinha deixado. Em pânico, desamarrou as cordas e tirou-lhe
a mordaça da boca.
Ele então contou o que acontecera. Como
um enviado de Joe Quatrociocci, inimigo público número 2, apareceu de madrugada
oferecendo dez mil dólares para fazer uma operação plástica ao rosto e às
impressões digitais do chefe da quadrilha.
- Não podia fazer isso. Apesar de
precisarmos muito de dinheiro eu não poderia empurrar a minha profissão para
esse fim sujo.
Ela saltou.
- Idiota! - gritou, rouca de ódio. -
Idiota, mole e fraco! Céus! E achas que és um homem! Devias ter feito a
operação e ninguém saberia. Podias ter aproveitado. Com todas as coisas que
quero e que preciso! Tu enterras-me nesta cidade horrível. A mim! E rejeitas
mais dinheiro do que já tivemos em dois anos da nossa vida!
- Mas, Myra, - protestou ele.
- Mas, Myra... - imitou ela - Já chega!
Entendeste? Nunca serás ninguém!
Saiu correndo da sala e da vida dele.
Raymond Bennet nunca mais a viu até
àquele dia em Viena. Cansado de tanto estudar e pesquisar, entrou num cinema
que exibia filmes americanos. A câmara cinematográfica fez coisas estranhas e
interessantes com a sua beleza. Ela era hipócrita e agressiva, bonita e má. O
tipo perfeito para representar o papel de vamp moderna - a vulgaridade
essencial escondida sob a arte dos técnicos de Hollywood. Ela não sabia
representar. Poderia vencer utilizando o seu próprio tipo na vida real.
Ele seguiu os seus filmes em Viena e
quando voltou a Nova Iorque. Foram dez anos de luta, brilhantes na ascensão da
carreira de cirurgião. Na biblioteca da sua luxuosa casa em Park Avenue podiam-se
encontrar, além de revistas de medicina, revistas sobre cinema. Uma noite
estava na biblioteca a tomar um conhaque depois do jantar, com um colega,
quando o mordomo entrou na sala trazendo o telefone portátil.
- Chamada de Hollywood, senhor.
- Hollywood? - estranhou o Dr. Bennet.
- Quem é?
O mordomo ligou o telefone ao
interruptor e conferiu com a telefonista.
- Um Sr. Bernstein, senhor.
- Nunca ouvi falar dele... - disse o
Sr. Bennet - mas é melhor atender.
Rápida e excitada a voz soou pelo
telefone. Bennet deu um salto.
- Quem foi que disse? - gritou. - Oh,
sim... sei. Não se preocupe com o dinheiro. Falaremos sobre isso mais tarde.
Sim, sim, cancelarei tudo. Sim, vou de avião. Fretarei um, se for preciso. Sim,
imediatamente.
Desligou o telefone.
A minha... quero dizer, uma amiga
íntima, Myra Bent, a estrela de cinema sofreu um acidente de carro. A cabeça
dela chocou com o vidro da frente. Era o produtor dos seus filmes. Eu disse que
iria.
- Você é o único homem no país que pode
fazer esse trabalho - disse o colega, aprovando.
No dia em que as ligaduras seriam
retiradas, ele entrou no quarto. Ficou sozinho a um canto, fumando um cigarro
enquanto os assistentes retiravam a gaze. Depois mandou que saíssem e caminhou
até à cabeceira de Myra Bent. Sem falar entregou--lhe um espelho.
Ela viu o seu rosto milagrosamente
reconstituído na sua beleza original. Mas era o rosto de alguém que ela nunca
havia visto antes. Um rosto sereno e adorável, de tanta paz e bondade que
olhando para ele fazia lembrar crianças brincando num jardim. Um rosto de
Madona, certamente o de um anjo. Qualquer coisa, menos o rosto de Myra Bent, femme
fatale da tela. Neste papel, ela nunca mais mostraria o seu rosto.
Antes que pudesse falar, ele levantou a
mão pedindo silêncio.
- Eu sei - disse. - Mas agora pelo
menos vais-te parecer com a mulher que sempre esperei que tu fosses.
Virou as costas e deixou-a com a
máscara que faria parte da vida dela para Jane Gikkson.

DOMINGOS CABRAL DA SILVA
»»» Publica-se aos dias 15 e último de cada mês! «««

Saudações Policiárias