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🔎 Uma homenagem ao cónego Novenat 🔍
CAPÍTULO DOIS
O Paraíso num Ferrari
De: Zé
Joseph d'Ambrosio nasceu José (Zé, para os amigos),
numa vila (agora cidade) plantada no coração do Pinhal do Rei. Aí viveu a sua
infância e boa parte da juventude, entre as lides escolares e as fugas (sempre
e sob qualquer pretexto) para a beira-mar, as areias atlânticas, a poucos
quilómetros.
E foi por aí, entre loucas florestais cheias de
adrenalina e agitados momentos musicados pelas ondas, naquela “catedral verde e
sussurrante… aonde se alonga e se prolonga a longa voz do mar” (no dizer do
poeta, dono da Casa-Nau), que o Zé se fizera gente de paixões. O cosmopolitismo
de Coimbra, pujante de juventude, de ideias e ideais, fez o resto!
No fim dos estudos, entre a voz da razão (uma calma
vida de professor) e a voz do coração, seguiu as emoções e foi trabalhar para a
grande fábrica de Maranello, onde o “cavallino rampante” lhe entrou nos genes
para sempre. Aí conheceu os senhores de Chamborg, numa demonstração de um carro
de sonho. O Marquês encolheu-se e ficou no stand. Madame foi… e ficou ...
apaixonada pelo carro!!! Lilly pediu e Mendés comprou o Ferrari, que José
trouxe para o castelo, com D. Lilly no banco do lado. Mendés, achacado, veio de
comboio, com Frau Jeremein, cujo contrato de assistência médica tinha sido
assinado em Itália.
Sobre as viagens dos quatro nada se encontrou
registado. Mas José ficou no castelo, como motorista. Madame exigiu mudança de
nome para Joseph e acrescentou-lhe o sobrenome d'Ambrosio, talvez inspirado por
um anúncio de bombons de chocolate. É que Madame insistia com Joseph: -
apetece-me algo! E o motorista, com o pretendido sempre a jeito, dava-lho...
A partir desse momento entrou num mundo esquisito. À
semelhança dos Luíses de França, Mendés tinha o dinheiro, mas não tinha nenhum
poder e todos giravam à sua volta, a ver quem lhe tirava mais, defendendo,
intransigentemente a sua posição contra os rivais, alimentando intrigas e
forjando traições e armadilhas. O Marquês caçava, caía, magoava-se e lá vinha
pedir tratamentos à sua enfermeira. Esta tinha muito poder, pois a saúde física
do Senhor estava nas suas mãos e na agulha da sua seringa...
O Cardeal Richelieu (perdão, perdão, o cónego Novenat)
era, para Joseph, uma figura sinistra, pois tinha na mão a parte espiritual do
Marquês, cada vez mais dependente das suas bênçãos. Rosto austero, brandia o
anátema do pecado como uma espada sobre a cabeça de toda a gente. Exigia
confissões a todos. Barulhentas, é um facto... Joseph sempre se recusou a esse
ritual e nem se aproximava dele; por isso, Novenat olhava-o de lado...
Frau Jeremein, que ia controlando o estado de todos
(mais intimamente, do Marquês), aconselhou Joseph a pisar menos o acelerador e
mais o travão, porque estava magro e por outras coisas. Joseph aceitou a
magreza, mas aconselhou Frau a preocupar-se mais consigo própria, mesmo não
ligando a outras coisas que (também) se diziam pelo castelo. Mas Jeremein era
fixe e Joseph sempre lidou bem com ela. Com ela e com Anardá, por quem ia
sabendo o que se passava e o que se dizia por ali. Criado e sacristão... sabia
o que se passava na casa e na capela...
E como poderia Joseph não emagrecer, se a sua vida era
uma permanente correria, quase sem tempo para descansar? O Ferrari era para
Madame, mas o Alfa GT alternava entre as idas às compras com Arnéss (a doce) e
os passeios sem destino com Kátinha Vanessa (a louca). Joseph adorava ambas.
Que belas patuscadas com a cozinheira, cheias de enchidos e um polvinho que só
ela sabia fazer. E que loucos raides com Kátinha Vanessa, cabelos ao vento e
roupas leves em turbilhão de túnel de vento...
Em tudo pensava Joseph, enquanto esperava Madame Point,
sentando ao volante do Ferrari. Como ele adorava aquela mulher, cujo rosto os
leitores conhecem do capítulo anterior. Os seus traços lembravam-lhe algumas
figuras femininas de Hugo Pratt, um dos seus autores de culto. Como poderia
Madame, após tantos anos e noites de Paris, manter aquele rosto? Joseph ficou
um admirador dos milagres da estética...
Finalmente, a porta do carro abriu-se. Lilly serpenteou
para o banco do lado. Fechou a porta e sussurrou, apenas, quatro palavras: -
Joseph, leva-me ao paraíso...
Ao toque no start, o motor V 12 uivou, como o
lobo-chefe convocando toda a matilha para a caça. Um uivo sublime, rouco,
longo, longo, até o Ferrari desaparecer, mergulhando no azul forte de uma tarde
francesa...
🔎
VOLTAREMOS na PRÓXIMA SEMANA, DIA 5 de JULHO, COM A DIVULGAÇÃO do
CAPÍTULO TRÊS "Vier Augen Sehen mehr als zwei", De: DETECTIVE JEREMIAS.
👌 FELIZ Domingo!
📔BOAS Leituras!