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terça-feira, 1 de setembro de 2026

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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

👣 Primórdios da Problemística Policiária Portuguesa »»» PPPP »»» CORREIO POLICIAL - Domingos Cabral ☝ (Re)publicação -- "CORREIO POLICIAL" de: 17.DEZ.2021 3.ª Parte PPPP - A. Araújo Pereira 🕵Problema Policial

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 *** 66.ª Edição! 🎓 📖

 

 

PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA PORTUGUESA

POR: DOMINGOS CABRAL - CORREIO POLICIAL

 

3.ª PARTE - PROBLEMAS N.ºs 15 e 16 

CICLO SECÇÃO "PROBLEMA POLICIAL"

- DE A. ARAÚJO PEREIRA 

 

*  *  *  *  *

 

SEMANÁRIO JUVENIL

“O MOSQUITO”

   


Problema N.º 15

        - Conte-me o que se passou, - disse Rosan ao guarda do grande armazém, que fora assaltado na véspera e donde tinham furtado importantes mercadorias.

        - Ontem, pelas 8 horas, acabava de jantar, quando fui assaltado pelas costas, sem que tivesse podido ver os meus assaltantes. Colocaram-me sobre o rosto um lenço embebido em clorofórmio e só hoje recuperei os sentidos. Ao acordar, vi que muitas mercadorias tinham desaparecido e apressei-me a telefonar-lhe.

        - Mas não ouviu nenhum barulho antes de ser atacado?

        - Sim, mas não fiz caso. Como lhe disse estava a jantar.

        O Inspector Rosan, entretanto, examinava o local e pegando no lenço, que se encontrava ainda húmido de clorofórmio, disse:

        - E não reconheceu as vozes daqueles que o assaltaram?

        - Não, não reconheci nenhuma voz.

        - Mesmo que reconhecesse não o diria pois você é um cúmplice dos bandidos e considere-se preso.

 

        Que induziu o Inspector Rosan a tal conclusão?

 

***

Problema n.° 16

        O Inspector Rosan fora chamado com urgência à aldeia X, onde se encontrara, num lago, o cadáver dum indivíduo.

        Nos seus bolsos foi encontrado um papel em que laconicamente se dizia:

        Suicidei-me. Ninguém é culpado da minha morte. J. Praxedes.

        Rosan analisou atentamente o pequeno fragmento de papel. A escrita era perfeitamente legível, embora estivesse estado dentro de água durante algumas horas.

        - É curioso, - disse Rosan, - tragam-me os objectos encontrados nos bolsos do cadáver.

        Rapidamente foram colocados sobre a mesa os seguintes objectos:

        Uma boquilha, uma caixa de fósforos, um maço de cigarros, uma carteira, um molho de chaves, um lápis de tinta, dois lenços, um bilhete de identidade e um canivete.

        Depois de percorrer com um atento golpe de vista todos os objectos, Rosan, disse: - Este homem não se suicidou, foi assassinado.

        PORQUÊ?

 

***

SOLUÇÕES:

Problema n.° 15:

        Se o guarda tivesse sido cloroformizado na véspera, o lenço estaria completamente seco, pois o clorofórmio é muito volátil.

 

Problema n.° 16:

        Se a escrita está legível não tinha sido feita com o lápis da vítima, pois este era de tinta e a permanência dentro de água tornaria o bilhete ilegível.

 

***

 

TEMA – LITERATURA POLICIÁRIA

EVOLUÇÃO DAS TÉCNICAS NARRATIVAS

- QUEM COMETEU O CRIME?

        É a narrativa policiária literatura ou jogo? A forma romanceada como nasceu na segunda metade do século XIX não dá lugar a dúvidas. Manifestamente literatura – e literatura de alto nível, como o tempo e os autores consagrados se encarregaram de mostrar – lida e apreciada sob o ponto de vista lúdico e exercício de raciocínio e saber. Naturalmente que se verificaram temporalmente alterações à técnica narrativa, essencialmente três divisões capitais, que acompanham as sistemáticas perguntas ante o crime: Quem? Como? Porquê?

        A primeira palavra que se aplica à identidade do criminoso, pergunta: Quem foi? Isto é, quem cometeu o crime? É a mais antiga, a mesma proposta pelo fundador inicial: Edgar Allan Poe.

 

***

        Como foi cometido o crime?

        O segundo processo da técnica da narrativa policiária – para nós a primeira, visto que a primeira já referida não é evolução, pertence a Poe, criador do género – está ligado ao modus operandi do ilícito criminal, isto é, Como foi cometido o crime? A pergunta é talvez mais abrangente do que a idealizada pelo autor da inovação, R. Austin Freeman, que no prefácio do livro The Sing Bone (1912), depois de considerar equívoca a sacramental pergunta de “Quem foi?”, normalmente esclarecida nas últimas páginas da narrativa, e não satisfaz tanto o interesse do leitor “Como se chega ao conhecimento do delinquente?”. O processo de Freeman ganhou juízes e continuadores, servindo mais tarde para o aparecimento de novos processos narrativos.

 

***

Porque foi cometido o crime?

Este terceiro processo narrativo apoia-se no “porquê?”. Ou porque foi cometido o crime? O que o liga à motivação do delito. Já sabemos quem, como, falta-nos o porquê. Algo tão importante porque a descoberta da razão do crime, é meio caminho andado para se encontrar o criminoso. É, de resto, o processo mais escolhido pelos autores actualmente. Em estudos de policiário já tivemos ocasião para referenciar Anthony Berkeley Cox, com o pseudónimo Frances Iles, como o pioneiro do sistema que aborda o processo psicológico.

 

*** 

A MÁSCARA,

Conto por PEGGY MORROW

 

        Dez notas de mil dólares novinhas, livres de tiras de plástico, lentamente colocadas soltas sobre o arranhado campo de vidro da escrivaninha do Dr. Raymond Bennet.

        Gotas de suor surgiram na testa e no lábio superior do médico.

        Dois minutos esgotaram-se antes do médico falar. Os olhos desviaram-se do dinheiro e fixaram-se nos frios olhos cinzentos do homem no lado oposto da mesa.

        - Não, - disse o médico. Não posso fazer isso.

        O visitante da meia-noite levantou-se. O seu impassível corpo esguio lembrava o de uma serpente.

        - Certo, doutor, se não quer, não faça. Os meus argumentos esgotaram-se e isso é algo que nem mesmo um revólver pode obrigar a fazer.

        Ele retirou as mãos enluvadas dos bolsos do sobretudo; a direita segurava uma automática.

        - Só por questão de segurança, vou amarrá-lo à cadeira e amordaçá-lo. E cortar os fios do telefone.

        Na manhã seguinte, o sono abandonava aos poucos a mente de Myra Bennet.

        Virou a cabeça no travesseiro para acordar o marido com alguma palavra amarga. Sentou-se bruscamente. A cama ao lado estava intacta! Vestiu o robe.

        Procurou pela casa e encontrou o marido como o pistoleiro o tinha deixado. Em pânico, desamarrou as cordas e tirou-lhe a mordaça da boca.

        Ele então contou o que acontecera. Como um enviado de Joe Quatrociocci, inimigo público número 2, apareceu de madrugada oferecendo dez mil dólares para fazer uma operação plástica ao rosto e às impressões digitais do chefe da quadrilha.

        - Não podia fazer isso. Apesar de precisarmos muito de dinheiro eu não poderia empurrar a minha profissão para esse fim sujo.

        Ela saltou.

        - Idiota! - gritou, rouca de ódio. - Idiota, mole e fraco! Céus! E achas que és um homem! Devias ter feito a operação e ninguém saberia. Podias ter aproveitado. Com todas as coisas que quero e que preciso! Tu enterras-me nesta cidade horrível. A mim! E rejeitas mais dinheiro do que já tivemos em dois anos da nossa vida! 

        - Mas, Myra, - protestou ele.

        - Mas, Myra... - imitou ela - Já chega! Entendeste? Nunca serás ninguém!

        Saiu correndo da sala e da vida dele.

        Raymond Bennet nunca mais a viu até àquele dia em Viena. Cansado de tanto estudar e pesquisar, entrou num cinema que exibia filmes americanos. A câmara cinematográfica fez coisas estranhas e interessantes com a sua beleza. Ela era hipócrita e agressiva, bonita e má. O tipo perfeito para representar o papel de vamp moderna - a vulgaridade essencial escondida sob a arte dos técnicos de Hollywood. Ela não sabia representar. Poderia vencer utilizando o seu próprio tipo na vida real.

        Ele seguiu os seus filmes em Viena e quando voltou a Nova Iorque. Foram dez anos de luta, brilhantes na ascensão da carreira de cirurgião. Na biblioteca da sua luxuosa casa em Park Avenue podiam-se encontrar, além de revistas de medicina, revistas sobre cinema. Uma noite estava na biblioteca a tomar um conhaque depois do jantar, com um colega, quando o mordomo entrou na sala trazendo o telefone portátil.

        - Chamada de Hollywood, senhor.

        - Hollywood? - estranhou o Dr. Bennet.

        - Quem é?

        O mordomo ligou o telefone ao interruptor e conferiu com a telefonista.

        - Um Sr. Bernstein, senhor.

        - Nunca ouvi falar dele... - disse o Sr. Bennet - mas é melhor atender.

        Rápida e excitada a voz soou pelo telefone. Bennet deu um salto.

        - Quem foi que disse? - gritou. - Oh, sim... sei. Não se preocupe com o dinheiro. Falaremos sobre isso mais tarde. Sim, sim, cancelarei tudo. Sim, vou de avião. Fretarei um, se for preciso. Sim, imediatamente.

        Desligou o telefone.

        A minha... quero dizer, uma amiga íntima, Myra Bent, a estrela de cinema sofreu um acidente de carro. A cabeça dela chocou com o vidro da frente. Era o produtor dos seus filmes. Eu disse que iria.

        - Você é o único homem no país que pode fazer esse trabalho - disse o colega, aprovando.

        No dia em que as ligaduras seriam retiradas, ele entrou no quarto. Ficou sozinho a um canto, fumando um cigarro enquanto os assistentes retiravam a gaze. Depois mandou que saíssem e caminhou até à cabeceira de Myra Bent. Sem falar entregou--lhe um espelho.

        Ela viu o seu rosto milagrosamente reconstituído na sua beleza original. Mas era o rosto de alguém que ela nunca havia visto antes. Um rosto sereno e adorável, de tanta paz e bondade que olhando para ele fazia lembrar crianças brincando num jardim. Um rosto de Madona, certamente o de um anjo. Qualquer coisa, menos o rosto de Myra Bent, femme fatale da tela. Neste papel, ela nunca mais mostraria o seu rosto.

        Antes que pudesse falar, ele levantou a mão pedindo silêncio.

        - Eu sei - disse. - Mas agora pelo menos vais-te parecer com a mulher que sempre esperei que tu fosses.

        Virou as costas e deixou-a com a máscara que faria parte da vida dela para Jane Gikkson.

 

 


 


DOMINGOS CABRAL DA SILVA

 »»» Publica-se aos dias 15 e último de cada mês! «««  

 

 

Saudações Policiárias