TEMA — ENIGMÍSTICA POLICIÁRIA PRÁTICA — O CLUBE DOS ANÕES E DOS GIGANTES
Por Marvel
Foi
nas proximidades do termo daquela sexta-feira, que ao salão nobre do
Clube dos Anões e dos Gigantes foi outorgado o beneplácito de aptidão
para comportar os festejos comemorativos do 5º aniversário da
colectividade, a realizar no domingo seguinte, por parte da unanimidade
dos seus decoradores e membros da agremiação.
As
consequências da abalizada conjugação de esforços entre os 14 jovens de
ambos os sexos eram visivelmente notáveis. Assim o declarou Silvino, o
presidente do Clube, sem reflectir na apologia com que galardoava a
própria pessoa, concluindo por dirimir, como acto de inultrapassável e
merecida justiça, a imediata inauguração do pequeno bar.
Somente
três pessoas não se sentiram seduzidas pela perspectiva enunciada.
Encostado ao parapeito de uma janela aberta, onde sacudia de quando em
vez a cinza do seu pseudo Havano, um sujeito de rosto cadavérico não
parecia disposto a desviar a vista da outra janela que o aposento
possuía, sita na parede que ficava à sua esquerda, ou mais precisamente
do parzinho que nela se debruçava, trocando deliciosas impressões a
respeito doa inumeráveis astros que povoam o Universo, com referência
especial à Ursa Menor e à derradeira estrela da sua cauda, que semelhava
um caprichoso pingo de prata a coroar os píncaros da colina fronteira.
Todavia,
esta situação não durou muito. Em breve a turba protestava contra o
isolamento do trio e obrigava-o a compenetrar-se em assuntos menos
sisudos. Alberto, o moço enamorado, foi o que mais renitente se mostrou
em abandonar a bucólica estadia à janela; e por isso se viu na pele de
“vítima” da alegria dos animados companheiros.
O
convite para se sentar num certo banco individual não foi recusado pelo
já resignado rapaz; teve, porém, o cuidado de ocupar apenas uma das
extremidades laterais, suficientemente afastado do centro côncavo
previamente lubrificado com uma tinta condizente com a cor do banco.
As
provas formais da louvável persistência dos improvisados “carrascos”
não se fizeram demorar. Um comprido tabuleiro repleto de taças vazias
foi colocado sobre os joelhos da “vítima”; e, uma por uma, foram sendo
cheias por mãos diligentes, e com tal magistral exactidão que uma gota
mais em qualquer delas a faria transbordar por todos os lados. Ao mesmo
tempo o “gigante” Silvino dizia:
—
Faz lá um favorzinho, amigo. Segura neste tabuleiro para nós fazermos o
último brinde. Sabes, não queremos usar a mesa para não sujar a toalha.
Mas…ó seus idiotas, então vocês puseram um dos panos que teremos de
usar na festa, a forrar o tabuleiro? Não vêem que se lhe cai uma gota
que seja, o pobre Alberto será obrigado a lavá-lo? Ora, que imbecis!
Com
os pés firmemente assentes no soalho, Alberto evitara até então o menor
derrame de líquido. Felizmente para ele, o seu sistema nervoso era a
toda prova, permitindo-lhe imobilizar absolutamente as pernas,
evitando-lhe, ao mesmo tempo, o contágio da alegria que pairava ao seu
redor.
—
Vá, então, bebam e vão para o diabo — aconselhou a “vítima”,
diligenciando não perturbar a estabilidade dos membros inferiores.
—
Que é lá isso? Calma! — recomendou o presidente. Já bebemos bastante.
Deixa-nos primeiro digerir devidamente o que temos dentro.
Mas
Alberto controlava com melhor êxito os nervos das suas pernas do que os
seus “martirizadores” a própria paciência. Esgotada esta, Monteiro, um
dos mais entusiasmados, resolveu apressar o acontecimento iminente e
aguardado.
— Ó pá! Foge dal! — gritou ele, pleno de intenções maquiavélicas.
Olha que o banco está cheio de tinta!
Como,
evidentemente, o aviso não surtisse o efeito desejado, disfarçou-se com
o coroável intuito de salvar a indumentária do amigo e lançou a mão a
um dos pés do banco, puxando-o para si. O resultado obtido elevou ao
paroxismo o regozijo que já então imperava.
— Oh! Coitado! — lamentou Silvino, entre duas gargalhadas. Sempre é mais difícil limpar um soalho do que lavar um pano…
Alberto,
o “Pequeno”, apelido que derivava do facto de ser o “gigante” menos
alto do Clube — possuía, precisamente, o mínimo de estatura exigido:
1,80 metros — pretendeu explicar ao anão “Monteiro” — o mais alto da sua
categoria: 1,48 metros — quanto lhe desagradara a brincadeira, do que
foi fácilmente dissuadido pelos outros. Mas o apaziguamento total só
adveio com a permissão do presidente para que adiasse até ao dia
seguinte a restauração que se impunha no soalho danificado.
O homem do rosto cadavérico ouvia e planeava…
Um…
dois… três… quatro tiros brotaram da mão entrapada do homem de rosto
cadavérico. Eficazmente perfurado, Alberto, o “pequeno”, largou o pano
molhado que usara para limpar o chão, e caiu para trás, morto.
O
homem fitou criticamente o corpo estirado, à sua frente. Por vezes, os
lábios entreabriam-se-lhe para formularem uma casquinada inexpressiva. À
sua retaguarda encontrava-se o famigerado banco que conhecemos, agora
com a tinta já seca. E o assassino acomodou-se nele o melhor possível,
continuando a dedicar a sua atenção ao corpo a que roubara a vida.
Não
manteve por mais tempo a contemplação a que se entregara. Desceu do
banco e aproximou -se de uma das janelas do aposento, que estava aberta,
tal como a do prédio fronteiro havendo a separá-las uma distância de um
metro, pouco mais ou menos. Meteu o pano e a arma no bolso, dirigiu um
último olhar ao cadáver e mudou-se para o edifício vizinho, soltando uma
gargalhada estridente… uma gargalhada de louco.
Depoimento do porteiro:
—
Eu estava com um amigo, que é da Policia, sentado do lado de dentro de
uma porta que dá para o estreito e extenso pátio que estende em recta
entre este edifício e o vizinho. De súbito, estando a olhar
distraidamente-para o solo do pátio, vi projectar-se nele uma sombra
como se alguém tivesse passado do outro prédio para este. Quando quis
certificar-me do que havia, já nada vi. Estavam algumas janelas abertas
nos cinco andares de cada edifício, mas apenas no terceiro piso se viam
janelas abertas que se defrontassem. Falei no caso ao meu amigo, tendo
ele opinado tratar-se de impressão minha. Mas, pouco depois, nova sombra
se recortava no pátio e, então, teve de modificar o seu parecer, pois
desta vez também viu. Resolvemos ir saber o que se passava lá em cima e
foi então que encontramos o corpo.
Depoimento de Vieira:
—
Devido a ter-me deitado já de madrugada, por causa dos últimos
preparativos para festa do aniversário do Clube, levantei-me bastante
tarde. Seriam, talvez, 11.30. Pensei ir até ao ginásio que eu, o Silvino
e o Salvaterra — ambos, também, sócios
do
Clube — armámos num apartamento, cuja janela defronta uma das do salão
nobre do Clube, mas desisti por me encontrar algo maçado. Fui a um café
onde fiquei até às 12. Depois, passeei por São Lázaro cerca de 20
minutos. Gastei 10 minutos a ouvir um propagandista, findo o que
regressei a casa, onde cheguei ás 13.15. Como vivo só e havia dado folga
ao meu criado, preparei eu próprio uma pequena refeição à base de
conservas. Às 14.10 saí e fui ver um jogo de futebol de reservas, onde
encontrei um amigo. No final, passei por um café, dei umas voltas,
sempre acompanhado pelo meu conhecido, e regressei a casa.
Depoimento de Silvino:
—
Estive ausente do Porto desde manhã cedo até á noite, praticando
campismo nos arredores. Não me afastei daquelas imediações. Naturalmente
que a morte de Alberto me surpreende. No entanto, atribuo-a a ciúmes,
pois, se as suspeitas se restringem a certos membros do Clube, devo
dizer que, até lá, todos nos sentíamos mais eu menos apaixonados pela
noive dele.
Depoimento de Salvaterra:
Quer
por me sentir cansado, quer por não trabalhar ao sábado, não me
levantei tão cedo como habitualmente. Cerca das 11 horas, entrei num
café para tomar o “galão” do “regulamento”. Qual não foi a minha
surpresa e satisfação ao ver numa mesa um casal que não via há vários
anos e a quem me liga uma amizade indestrutível. Eles, igualmente
satisfeitos, não me larguem senão depois das 15, após ter almoçado com
eles. Telefonei à minha noiva para a convidar a sair, no que não fui
feliz. Então, resolvi ir ao cinema para de seguida gastar as horas que
me separavam do jantar num jogo de bilhares.
O
polícia, amigo do porteiro, o amigo de Vieira e o casal das relações de
Salvaterra, pessoas de probidade a toda prova confirmaram as
declarações que lhes diziam respeito.
Pergunta-se:
Interpretando perfeitamente a lógica, o raciocínio e a dedução, quem acha o leitor que é o “homem de rosto cadavérico” e porquê?
Sentidos Pêsames á sua família. Paz á sua alma✝️
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