🧐 🕵️ Primórdios da Problemística Policiária Portuguesa...👣👣 🔍
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PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA PORTUGUESA
2.ª PARTE - CICLO L. FIGUEIREDO
* * * * *
SECÇÃO “O LEITOR É SHERLOCK HOLMES?”
P R O B L E M A S P O L I C I A I S
O leitor é
Sherlock Holmes?
COMO OS GRANDES POLÍCIAS DESCOBREM
OS CRIMES MAIS MISTERIOSOS
QUERE O LEITOR FAZER DE «DETECTIVE»?
SECÇÃO “O LEITOR É SHERLOCK HOLMES?”
10.º PROBLEMA:
"COMO MORREU BARNABÉ LEÃO?"
Barnabé Leão, velho industrial retirado do negócio, foi encontrado morto na sua biblioteca com o crânio atravessado por uma bala de revólver. Teria sido um crime? Se de um crime se trata, quem o praticou e em que circunstâncias? As respostas a estas perguntas podem obter-se dos factos que se seguem e do esboço do cenário do crime.
Às 9 e 25 da noite de 12 de Janeiro a polícia de Lisboa recebeu uma chamada telefónica de um homem que falava numa voz bastante angustiosa:
“Daqui fala o criado do sr. Barnabé Leão. O meu patrão acaba de se suicidar.
Encontro-me sozinho em casa. Venham depressa. Como? 237 da Avenida da República, Sim, senhor. Eu espero. João Silva, o criado!”.
A polícia quando chegou à residência indicada encontrou o criado e a cozinheira Maria da Conceição esperando ansiosamente à porta; a criada da cozinha tinha nesse momento acabado de chegar da rua e apenas há dois minutos que sabia do triste acontecimento. No escritório foram encontrar o industrial enterrado numa poltrona, morto com uma bala que lhe tinha penetrado no crânio pelo meio do frontal. Um revólver que mais tarde foi identificado como pertencendo ao morto foi encontrado no assento da cadeira de braços entre um dos lados e a coxa esquerda do cadáver, como se tivesse caído da sua mão. Abaixo da ferida e nas costas dos dedos das duas mãos do morto havia sinais de pólvora e no revólver foram depois examinadas as impressões dactiloscópicas que coincidiam com as de Barnabé!
Apenas uma bala tinha sido disparada, aquela que tinha vitimado o industrial, cujo corpo se verificou não ter sido roubado dos objectos ou dinheiro que possuía.
Enquanto a esposa de Barnabé Leão não chegou do teatro, onde tinham ido chamá-la apressadamente, a polícia interrogou o criado e a cozinheira. O criado contou a seguinte história:
“Não era segredo para ninguém que o seu patrão perdia actualmente bastante dinheiro na Bolsa, especulação a que também não era alheia sua mulher. Nas semanas anteriores ouviu-o ele muitas vezes discutir com sua esposa, invectivando-a pelas suas extravagâncias e negligência. Ela retorquia-lhe ser ele o único culpado do desequilíbrio das suas finanças, e acontecia azedarem-se os ânimos a ponto de não se falarem durante as refeições. Fora o que sucedera nesse dia.
“Madame Leão saiu para o teatro às 8 e 30 e seu esposo foi para o seu gabinete de trabalho, dois minutos mais tarde, fechando a porta atrás de si como habitualmente fazia. Levei-lhe o vinho do Porto, como de costume, apenas ele entrou e saí imediatamente. Permaneci na copa e na cozinha durante algum tempo esperando que ele me chamasse para qualquer coisa e, cerca das 9 horas, a cozinheira saiu para ir ver um incêndio no fundo da Avenida. Ouvia as bombas de incêndio rolarem pela rua com grande ruído ao mesmo tempo que as buzinas lançavam no espaço um estridor aflitivo. Durante um quarto de hora ou vinte minutos que este barulho se prolongou, visto tratar-se de um fogo considerável. Foi então que me lembrei que o sr. Leão podia ter tocado a campainha e que eu não tivesse ouvido. A campainha está colocada na copa e eu tinha estado a ver o fogo da janela da cozinha. Entrei na copa e bati na porta do escritório. Não obtive resposta. Entreabri a porta, espreitei e vi o meu patrão caído no "fauteuil" como os senhores acabaram de o encontrar, sangrando da cabeça. Cheguei-me junto dele, tomei-lhe o pulso e vi que estava morto, o que me levou a sair imediatamente sem que tocasse em qualquer objecto e telefonando a seguir para a esquadra da polícia. E tudo quanto eu vi. Com certeza que ele se suicidou durante a passagem das bombas de incêndio, razão porque não ouvi o tiro”.
A antiga serva de confiança da família Leão afirmou ter estado de facto com o criado João na copa e na cozinha até cerca das 9 horas. Assegurava que o seu patrão estava vivo até perto das 9 horas, porque antes de ter deixado a casa para ir ver o fogo ouviu-o tossir no escritório bem como distintamente, quando ela se encontrava na copa, ter sentido o ruído que o industrial fizera quando assentara o copo na pequena mesa ao lado da cadeira onde se sentava. O criado - garantia a cozinheira - estava nessa ocasião na cozinha. Foi momentos depois que ele ouviu as sirenes do incêndio e saiu apressadamente para a rua, dizendo ao João que se demoraria uma meia hora se o fogo fosse grande. Dez minutos mais tarde ouviu-se um segundo alar-me e fronteiras à casa passaram mais bombas para o incêndio.
Quando a cozinheira voltava a casa, às 9 e 25, acabou de ouvir o final do telefonema do criado chamando a polícia.
Estaria o criado dizendo a verdade?
A polícia examinou minuciosamente a superfície recentemente polida e encerada do sobrado do escritório e verificou que tudo parecia corroborar o que ele contara. As marcas dos saltos dos sapatos do industrial iam da porta do vestíbulo à cadeira de braços onde fora encontrado morto e terminavam aí. Era certo que ele costumava dirigir-se para o escritório depois do jantar, fechava a porta atrás de si e, muitas vezes, ali se sentava lendo durante bastante tempo. A porta em questão foi encontrada fechada por dentro pela polícia.
Da porta da copa e na direcção do corpo do industrial e da pequena mesa havia duas ordens de pegadas para lá e duas para cá, as quais se ajustavam perfeitamente com os sapatos do criado, concordando, portanto, com o depoimento que fizera onde disse que apenas duas vezes tinha penetrado no escritório: a primeira para servir o vinho, e a última para examinar o corpo. Um exame cuidadoso ao “parquet” do escritório não revelou outras pegadas, mas os "detectives" pelas experiências a que procederam, afirmavam que uma pessoa podia ter palmilhado o chão, descalço e com meias, seio deixar qualquer marca.
Madame Leão quando chegou à cena do crime vinda do teatro confirmou o que o criado dissera à polícia sobre a discussão que tivera com seu marido, mas negou veementemente que fosse possível ele ter-se suicidado devido a fracassos financeiros com especulações na Bolsa. Por outro lado, não havia qualquer outra razão para que alguém lhe desejasse a morte. Tanto ela como a criada recusaram-se a acreditar que João Silva, o criado, tivesse conseguido um assassinato na pessoa de seu patrão, dando-se os dois admiravelmente apesar do criado se encontrar ao serviço da casa há apenas dois meses.
A investigação a que se procedeu mostrou que a viúva tinha estado no teatro desde as 9 horas até ser chamada quando a tragédia e que a criada Maria da Conceição tinha efectivamente estado a ver o incêndio durante o espaço de tempo que afirmara. João Silva negou abertamente saber outros pormenores da tragédia. Quando lhe perguntaram se durante o tempo em que esteve na cozinha alguém poderia ter estado em casa e assassinado o patrão, negou essa possibilidade. Assegurou à polícia que a porta do vestíbulo e todas as janelas estavam na ocasião fechadas por dentro. A polícia confirmou este facto.
Tem, portanto, o leitor na sua posse todos os elementos que a própria polícia utilizou na descoberta da morte misteriosa de Barnabé Leão. O que é que se deduz do mistério?
Três dias mais tarde fez-se mais alguma luz sobre o caso, pela descoberta de certos papéis nos arquivos do falecido e de que o leitor terá conhecimento quando for publicada a solução. Entretanto, as perguntas a responder são:
1.º – Às mãos de quem Barnabé Leão encontrou a morte?
2.º – Como o deduziu o leitor?
* * *
Nota: Por falta de espaço, a publicação da solução deste problema só ocorrerá na próxima semana.

DOMINGOS CABRAL DA SILVA
»»» Publica-se aos dias 15 e último de cada mês! «««




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