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CAPÍTULO TRÊS
Vier Augen sehen mehr als zwei
De: Detective Jeremias
Muito se especula sobre Frau Jeremein (FJ).
Quase sempre, por onde ela passa as conversas de café, os mexericos das senhoras vizinhas, as bisbilhotices do chá das cinco, as colunas sociais do jornal da terra ou as páginas das revistas cor-de-rosa inventam-lhe um passado, um presente e até lhe profetizam um futuro. Não passam de delírios mirabolantes, ou seja, de chorrilho de mentiras.
Uma coisa posso eu garantir ao leitor, tudo o aqui vier a ler é a mais pura verdade, sem ficções, invenções, disfarces ou fingimentos.
Para começar, FJ é tão alemã como a Padeira de Aljubarrota. Sabe-se que é portuguesa, mas o local exacto do seu nascimento, um lugarejo sem nome, permanece no segredo dos deuses. Cedo verificou que o seu futuro profissional iria passar pela polivalência e, talvez por isso, na faculdade, em vez da frequência às aulas, optou por adquirir competências no grupo cénico universitário, onde só não foi cabeça de cartaz porque imperava a democracia e eram todos iguais. O espírito aventureiro, a capacidade para encarnar diferentes personagens e uma certa facilidade para falar idiomas levaram FJ a mudar de profissão como quem muda de camisa e a percorrer todo o mundo.
FJ tudo falsificava, identidades, currículo, credenciais, diplomas e até boas referências de entidades empregadoras. Mas no fundo era uma mulher cumpridora e honesta. Mantinha os problemas à distância, primeiro porque a sua cabeça pragmática não lhe permitia simular conhecimentos que não tinha, não a deixando ir além das suas competências; segundo, a sua costela anarquista não a deixava envolver em intrigas políticas ou religiosas; e, finalmente a sua veia sarcástica impedia-a de se enrolar de amores com patrões, camaradas de trabalho e homens que fossem “colas” ou pés de chumbo.
E quando se fartava do trabalho, das pessoas, ou do local onde estava, despedia-se e partia para outra.
Falta apenas esclarecer o leitor que FJ, cujo verdadeiro nome se desconhece, tem escolhido desde 1985 nomes derivados de Jeremias. É que FJ é fã do Jorge Palma, e quando ouviu “Jeremias fora da lei” identificou-se com o personagem. Assim, já foi Miss Jerô, Jerônima, Jay, Jéry, Jeh-ri-miah, Jeriminova e outros tantos devaneios conforme a nacionalidade adoptada no momento.
E para não perder mais tempo, passo já de imediato ao que me traz aqui hoje: como e porquê FJ e o castelo de Chamborg aparecem ligados nesta história.
FJ estava em Itália, mais precisamente em Siena onde trabalhava em restauro de livros antigos, quando soube que o Marquês Mendés de Chamborziac procurava uma enfermeira diplomada que lhe tratasse da saúde (sem ironia). Para a Madame de Chamborg era condição essencial que tal pessoa fosse alemã, nem precisava de ser, desde que desse injecções e usasse estetoscópio – ficava bem nas fotos das revistas e por tabela, provocava dor de cotovelo nas amigas.
FJ frequentara o Goethe Institut em Lisboa (não sabia nada de alemão, mas tinha um sotaque germânico perfeito quando falava qualquer língua, tinha o curso de primeiros socorros e trabalhara durante um ano na Argentina como auxiliar de um veterinário especializado em cavalos. Investiu numa bata branca, numa maleta de enfermeira e num estetoscópio garantindo assim ordenado chorudo e um emprego numa zona da França que ainda não conhecia.
Ao fim de uma semana a viver no castelo de Chamborg, FJ topou logo que andava mistério no ar. E do grosso! Cheirava a tramóia mesmo com máscara cirúrgica. E a nossa FJ não estava a considerar a rebaldaria de Joseph d´Ambrosio com a Madame Point no Ferrari, nem nas práticas dominicais entre o Padre Novenat e a Kátinha, nem outros jogos de lençóis que pareciam ser o pão-nosso de cada dia, no Castelo de Xôborga nas palavras de FJ.
Talvez fosse por isso que FJ não se surpreendeu quando, já depois do jantar, a chamaram ao telefone fixo e do outro lado ouviu a voz inconfundível de Tempicos: “Um informador meu transmitiu-me que havia por aí uma enfermeira diplomada chamada Jeremein. Topei logo que devias ser tu.” - atirou o Tempicos de rajada logo que ouviu o áspero “Halô” germânico de FJ. Sem dar hipóteses ao diálogo, Tempicos continuou: “Ouve bem com atenção! Amanhã chego aí ao castelo. Fui contactado para deslindar um mistério. Preciso da tua colaboração, porque duas cabeças pensam melhor que uma, mas nada de meteres o bedelho.’Té ‘manhã.” E desligou.
FJ suspirou alto e disse para o ar intrigado da Madame especada no átrio: “Mein Gott. Érrá enganô.”
Abro aqui um parêntesis para esclarecer que a linguagem desbragada do Tempicos para FJ se deve à forma como se conheceram, no bas fond lisboeta. Tempicos andava numa linha de música jazz e FJ vendia discos vinil numa cave clandestina onde também havia música ao vivo e sessões de striptease. Três meia-volta encontravam-se nos locais mais improváveis e mantinham a cumplicidade dos bons malandros. Fecho aqui o parêntesis.
À noite, no seu quarto numa das alas do imponente castelo, FJ alinhava teorias. Qual seria o mistério? Um crime em fase de planeamento? Um roubo? Ou um golpe mais obscuro? A Madame só queria “bem bom” e revistas do jet set. Andaria de olho na fortuna do Marquês? O Marquês andava achacado, cabisbaixo por causa do peso das traições da Madame. Estaria ele a pensar tornar-se viúvo pela segunda vez? Joseph motorista estava tão trinca-espinhas que se lhe contavam os ossinhos das costelas. Estaria a engendrar alguma tramóia? Novenat, à pala das confissões obrigatórias, conhecia os podres de toda a gente (excepto de Joseph e FJ). Teria o padre armado um esquema de chantagem generalizado? Arnéss, a cozinheira, tinha como livro de cabeceira um tratado de plantas com o subtítulo de “Venenos e Toxinas Naturais”. Seria esta mulher uma psicopata à boa maneira da ficção policial? Anadrá, mesmo quando praticava nudismo, não largava os potentes binóculos com bússola incorporada. Que segredo carrega este homem? E Katinha Vanessa com o seu ar de Lolita lusitana puritana, mas de comportamento duvidoso?
FJ estava decidida. Iria colaborar com Tempicos, porque como diz o provérbio alemão Vier Augen sehen mehr als zwei, ou seja, 4 olhos vêem melhor do que 2, em tradução literal, ou ainda no equivalente em português: 2 cabeças pensam melhor do que 1.
👌 FELIZ Domingo!
📔BOAS Leituras!










👍🤔
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