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De: Inspector Boavida
Quando o avião aterrou no aeroporto de Orly, Salvador Santi, um dos mais reputados e bem-sucedidos programadores teatrais da Broadway, soltou um longo suspiro. Não de alívio, mas de nostalgia e ansiedade. Ou talvez de angústia e temor por ir remexer num passado que lhe deixou marcas profundas e dolorosas. O coração começou a bater forte e descompensado. Ele havia jurado jamais voltar a Paris, mas as circunstâncias impunham o seu regresso àquela cidade onde fora feliz outrora. Tudo começara na revolta estudantil de Maio de 1968. No meio de um magote de gente que invadira a Boulevard Saint-Michel, conheceu a grande paixão da sua vida. Era ainda um inocente moçoilo com 18 anitos acabados de fazer, quando descobriu o amor. Tudo aconteceu tão depressa, como depressa acabou. O amor começou numa avenida por entre gritos de libertação e terminou num bar ao som das canções de Juliette Gréco.
Foram apenas dois anos de um amor fogoso e ardente que acabou por degenerar num desgosto que ainda hoje perdura. Santi sofrera em silêncio durante todos estes anos a terrível dor da traição. A ferida fora agora inesperadamente reaberta. Um velho e maçador detective reformado da Polícia Judiciária Portuguesa, que se assina simplesmente Tempicos – estranho nome… –, um típico machão português que habitualmente se pavoneia pelas praias do sul do país, convenceu-se de que tem dotes de escritor e pediu-lhe uma oportunidade de mostrar os seus talentos na escrita teatral. Santi, para o despachar, disse-lhe que sim. Mas exigiu que a peça estivesse pronta a tempo de estrear na próxima temporada teatral. E mais: impôs que a trama fosse desenvolvida em registo policial e envolvesse um crime. Tempicos rejubilou de alegria e respondeu-lhe: «Terá notícias minhas em breve. Siga a Bancada Directa». Santi ficou curioso, muito curioso. Ao princípio pensou que a tal Bancada Directa teria alguma relação com o mundo do futebol, um desporto que ele abomina, por não entender que prazer pode haver em assistir a um grupo de homens de calções vestidos a correr e a chutar uma pobre e indefesa bola, o que, segundo ele, só pode contribuir para a alienação do povo. Mas após uma pesquisa rápida na internet, Santi percebeu tudo. O incrível Tempicos havia engendrado um expediente bastante original e criativo que lhe permitia produzir um guião teatral sem qualquer esforço, explorando a boa-fé de sete notáveis escritores, sete ilustres personalidades que ocupam os seus tempos de ócio escrevendo e decifrando enigmas policiais. Tempicos desafiou-os a escrever uma novela a várias mãos, definindo-lhes previamente as regras que deviam cumprir, descrevendo-lhes as personagens e fixando o local de acção: Castelo de Chamborg. Ao ler o nome do Castelo, Santi sofreu um forte abalo que o remeteu para a memória dos tempos que havia reprimido e recalcado no mais íntimo do seu ser. Fora naquele Castelo que ele vivera o seu grande amor. Os nomes dos protagonistas não correspondiam aos das pessoas com quem vivenciou o seu passado no Loire. Mas à medida que os capítulos iam sendo publicados, as personagens foram-se tornando cada vez mais reais e Santi foi associando os protagonistas da novela à sua história de amor. Só a personagem mais jovem, a tal Kátinha que o cónego Novenat sustenta ter sido convidada para ingressar no Teatro Ambassador, escapava ao seu conhecimento. Ela ainda não havia nascido. Todos os outros, desde a Lilly ao Anarda, encaixam no perfil psicológico das pessoas com quem partilhou aqueles adoráveis e, ao mesmo tempo, tenebrosos tempos da sua juventude. Eram eles, só podiam ser eles. Santi estava de regresso ao passado! Quando chegou ao Castelo, as pernas tremiam-lhe. As mãos gelaram. Um fino suor frio correu-lhe pela espinha abaixo. Conduziu o carro que havia alugado no aeroporto até uma zona próxima do Castelo. Ninguém o viu. Não avistou vivalma. Nada indiciava que houvesse gente no Castelo. Com cautelas, para que ninguém o visse, Santi penetrou lentamente pelo Bosque dentro. Passaram largos minutos. No Castelo continuava a reinar o silêncio. Nada, nenhum ruído. Apenas se ouviam, vindo do Bosque, os sons dos pássaros. De repente, um sinistro silvo de cobra. Ou seria de uma seta de caça? Um grito lancinante. Depois, passos pesados em correria por entre a vegetação. Poças pisadas por desatino. Um homem sai do Bosque correndo em direcção ao Castelo. Era Tempicos! Voz rouca e profunda. Algum tremor na garganta: «Acudam, acudam! O Marquês está morto!! Mataram o Marquês!!!».
👌 FELIZ Domingo!
📔BOAS Leituras!








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