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domingo, 23 de agosto de 2026

TEMPICOS NO CASTELO DE CHAMBORG - Mais "Crimes"! 🕵 Autores: A. Raposo, Detective Jeremias, Onaírda, Zé Arnes, Inspector Boavida e Nove -- Os Sete Magníficos! 📚 Edições TPL -- 📖 1.ª Edição, Lisboa, Outubro, 2011

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 🔎 Uma homenagem ao cónego Novenat 🔍 

 

Episódio Final de Nove

(Tempicos obrigado a descobrir o criminoso)

 

 

Quando Tempicos chegou ao Castelo, serenou. Mas os seus gritos tinham sido ouvidos e fizeram acorrer a criadagem não mobilizada para a grande caçada. Agora, o alvoroço era deles.

“Mas tem a certeza de que mataram o Sr. Marquês? Como foi?”

“Uma seta? Não pode ser, quem ia fazer uma coisa dessas?”

“Hum… aquele estupor não morre à primeira. O senhor viu-o mesmo morto?” Murmurou um em surdina.

“Coitadinho, assim abatido sem se poder confessar. É preciso avisar o Sr. Cónego.”

“Se o Sr. Marquês ainda está vivo, não será melhor chamar uma ambulância?”

Tempicos levantou a voz para serenar os ânimos e sentenciou: “Chamem a polícia e também uma ambulância, à cautela. Ninguém pode sair do Castelo sem a minha autorização. Dentro de cinco minutos quero saber quem foi para o bosque e quem ficou por aqui. Todos são suspeitos e o melhor que cada um tem a fazer é não arranjar sarilhos suplementares. Fiz-me entender?”

O pessoal aceitou, temeroso, as ordens de Tempicos e organizou-se o melhor que soube para as cumprir. O nosso detective empalidecera, não por causa da corrida que fizera da floresta para o Castelo, mas por estar preocupado com a péssima posição em que se encontrava devido ao mau hábito de dar bocas. Tendo feito constar, a fim de promover uma peça para a Broadway, que iria haver um crime em Chamborg, viu o dito crime acontecer e, agora, para se salvar, não tinha outro remédio senão descobrir o criminoso no curto espaço de tempo que a polícia francesa levaria a chegar ao Castelo.

Enquanto meditava na sua triste sorte, algo que ele não sabia bem se era a de ser suspeito de um homicídio ou a de ter que trabalhar à pressão, apareceu-lhe o inefável cónego Novenat de mãos postas, orações a saírem da boca e um ar sobremaneira compungido.

O padre afirmou ter estado na capela a tentar descobrir um mistério, não acabando a explicação porque, entretanto, começaram a chegar os convivas da caçada, menos o morto, coitado, que lá ficou para ser observado pelos peritos, “in loco”, como manda a lei.

Arnéss e Kátinha choravam agarradas uma à outra. Frau Jeremein controlava mal os soluços, mas mantinha garbosamente a cabeça erguida. Anardá vinha com ar de quem tinha realizado uma façanha. Madame Lilly carregava as linhas dos sobrolhos com ar inquisitivo, enquanto se apoiava no braço esquerdo de Joseph. Este, ao contrário do que lhe era habitual e do que a gravidade do momento aconselhava, exibia um sorriso malicioso. Um criado empunhava um pau com um forte baraço pendente, que Anardá depressa foi guardar. Outro criado trazia dois animais pela arreata, um deles com os cestos dos lanchinhos ainda por abrir. Salvador Santi chegou em último lugar a assobiar, muito baixinho, uma área da Tosca.

Tempicos disse para si mesmo. “Isto, se calhar, foi uma conspiração. Não me fio em nenhum.”

O tempo urgia.

A grande novidade, o resultado mais palpável do interrogatório, era uma certeza de Anardá, a sua convicção absoluta de ter morto um veado como nos tempos antigos. Mas não disse onde estava o cervídeo nem como o matou. Era coisa, segundo ele, que só mais tarde poderia revelar.

O nosso detective pôs-se a cruzar dados a uma velocidade que lhe deixou o cérebro a ferver. Teve de pedir água. Aquilo não estava a resultar, apesar da certeza incriminatória do Anardá, mas pouco credível. O mistério, em vez de se desfazer, adensava-se. E por falar em mistério, havia que saber mais coisas do cónego Novenat.

Tempicos resolveu então aceder a um pedido do padre e acompanhou-o até à capela. Aí chegados, dirigiram-se para o altar de S. Sebastião, onde Novenat, apontando para imagem do mártir, perguntou “Que lhe parece?” O detective disse que a imagem lhe parecia bem proporcionada e acabada, muito realista. “Não dá por falta de nada?” Tempicos concentrou-se e viu um furo na atlética barriga do santo, sem a respectiva seta. O cónego, percebendo que o seu interlocutor dera pelo buraco, apressou-se a informar “Era a flecha maior, capaz de matar um javali. Só dei pela falta hoje, quando já todos tinham partido para o bosque”.

Entre o pensar e o perguntar, entre o pensar e o responder, Novenat lá foi informando, com desgosto, que Madame Lily se dizia muito devota de S. Sebastião e, amiúde, se ajoelhava junto da imagem do santo, a meditar.

Estavam a sair da capela e o rosto do padre apresentava-se vermelho como se tivesse apanhado um banho de sol. O caso não era para menos. Como homem atormentado pela carne, mas admirador das virtudes, via-se obrigado a lançar suspeitas sobre quem com ele se deitava, sem conseguir esquecer-se desse aspecto erótico e da perda em perspectiva.

Tempicos, entretanto, já começava a ver mais claro.

Rápido voou, como mocho sábio, sobre aqueles que, a partir de então, pareciam ser os dois principais suspeitos: Madame Lily e Anardá.

Em três minutos espremeu-os. Já se ouviam as sirenes da ambulância e dos carros da polícia.

Madame Lily planeara tudo e convencera Anardá de que se matasse um veado à maneira antiga, com arco e flecha, quando o animal passasse em determinado sítio, não poderia ser acusado de violar as leis cinegéticas e ganharia fama suficiente para alcançar um lugar no cinema. Mas que tivesse cuidado, não levantasse a presa antes do lusco-fusco nem desse com a língua nos dentes cedo demais. Por outro lado, persuadira o Marquês a seguir por determinada vereda onde o Anardá, um pouco afastado, o pudesse tomar por um bicho com uma boa armação na cabeça, vistoso enfeite que, como sabemos, não faltava ao fidalgo. E assim se consumou o hediondo crime.

Quando Tempicos, depois de colhido este sumo todo, se preparava para relaxar, assaltou-o novo pesadelo. Agora era preciso muita concentração e ronha para fazer com que a polícia francesa saísse dali inteiramente convencida de ter sido ela a deslindar o caso. De outro modo, os garbosos agentes franceses até seriam capazes, pensava Tempicos, de inventar um criminoso diferente, só para não aceitarem conclusões tiradas por outrem.

Fim de “Os Mistérios do Castelo de Chamborg”

 

 

 








  

🔎 VOLTAREMOS na PRÓXIMA SEMANA, DIA 30 de AGOSTO, COM A DIVULGAÇÃO do "Episódio Final de Arnes".



 

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