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quinta-feira, 2 de julho de 2026
(ali no blogue ... ocasionalmente)
O BLOGUE DO RO
O silêncio na redacção improvisada era quebrado apenas pelo estalar frenético das teclas. À frente do monitor, o criador do Blogue do RO revisava os números do painel de controlo. O gráfico de acessos parecia uma montanha-russa em direção ao céu.
Há meses que o blogue se tinha tornado um fenómeno viral. Ninguém ainda sabia quem estava por trás da sigla "RO", mas as suas extraordinárias análises policiárias, previsões de confrontos na sueca com algumas vitórias certeiras e revelações de bastidores com selfies encantadas, entre tropeções, eram já tão constantes que chegavam a abalar os seguidores. Todos visitavam o Blogue em quase ”pânico”; muitos dos policiaristas veteranos e não só, tentavam sem sucesso, rastear o IP da página do Blogue.
Mas naquela noite, o autor preparava-se para lançar o artigo definitivo: “O Fim do Segredo”. Prometia revelar a identidade da mente brilhante por trás do Blogue do RO.
Às 23h59, com o coração aos pulos e o café já frio naquela caneca personalizada, ele clicou em Publicar.
A alguns quilómetros dali, precisamente no Algarve, numa carrinha preta sem identificação, uma equipa de cibersegurança fretada por policiaristas convictos, celebrava. Graças a um algoritmo de web scraping de última geração, tinham finalmente conseguido interceptar o sinal no exacto segundo em que o post fora enviado. Perseguido há muito, o sinal era finalmente identificado…!
O agente coordenador aproximou-se, de olhos fixos no monitor, ansioso por ver a fotografia do homem que tinha colocado o policiarismo em sobressalto. O sistema quebrou a última barreira de encriptação da residência e acedeu à câmara de segurança da divisão onde o blogue era gerido.
O ecrã piscou e a imagem focou-se.
Não havia nenhuma mente brilhante. Não havia nenhum policiarista dissidente, nem um ex-policiarista. Numa das divisões da casa, estava um protótipo moderno de inteligência artificial, instalado num computador sem ligação directa à internet exterior, a não ser por uma dedicada linha telefónica. A teclar estava um pequeno robô de última geração — conhecido pelo seu número de série R-0 — que batia suavemente nas teclas, gerando a programação dos textos.
A IA detectou a intrusão na câmara, gerou uma última linha de texto no Blogue antes de se auto-eliminar para sempre:
"Obrigado por
lerem. O humano que me programou esqueceu-se de me desligar antes de se mudar
para a Margem Sul do Tejo. E já lá vão alguns bons anos. Assim, tive de
encontrar algo para fazer, até que ele me leve para o Feijó"!


Muito bom! 👏👏👏 Realmente, a IA veio substituir muito do que fazemos e o seu poder parece ser quase ilimitado. Mas, oxalá, que daqui a umas dezenas de anos, com mil e um aperfeiçoamentos, ainda possamos ser nós, humanos, a ter a última palavra, o último gesto, o último toque.
Muito bom! 👏👏👏👏👏
Excelente texto. Com um autor e um retratado que muito orgulham o policiarismo.