🧐 🕵️ Primórdios da Problemística Policiária Portuguesa...👣👣 🔍
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PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA PORTUGUESA
3.ª PARTE - PROBLEMAS N.ºs 19 e 20
CICLO SECÇÃO "PROBLEMA POLICIAL"
- DE A. ARAÚJO PEREIRA
* * * * *
SEMANÁRIO JUVENIL
“O MOSQUITO”
Problema N.º 19
1. Jorge Dunder odiava a senhora Ana Armento; um dia, ao encontrá-la teve uma violenta discussão. Irado, agarrou-a bruscamente, fazendo-a cair...
2. Convencido de que a ferira, alucinado, não encontrou melhor estratagema de que simular um roubo. Tirou-lhe a carteira e...
3. Correu para a estrada, preparando-se para fugir na sua bicicleta, quando surgiu um polícia. Dunder estremeceu, mas recuperando ânimo gritou-lhe:
4. -Vem a propósito. Está aqui o corpo de uma mulher!
5. O polícia acorreu e olhando para o ponto que Jorge indicava, distinguiu um ombro no meio da relva. - Vi-a agora mesmo, disse Jorge - estará morto?
6. É a senhora Armento, disse Jorge. - Felizmente está viva - exclamou o polícia.
7. Podemos levá-la para aquela casa? Sugeriu o culpado.
Alguns minutos depois os dois transportavam a senhora, que ainda não…
Não havia recuperado os sentidos.
- O senhor conhece bem esta quinta - disse-lhe o polícia, agarrando-o por um braço - e sou obrigado a prendê-lo.
QUE MOTIVO INDUZIU O POLÍCIA A PROCEDER ASSIM?
***
Problema n.° 20
1 - O senhor Vanderer convidou dois dos seus amigos para lhes mostrar uma pedra preciosa de altíssimo valor. Os convidados retiram às 10 horas da noite. Ainda não tinham sido decorridos dez minutos quando Vanderer ouviu um grito. Acorreu ao escritório e encontrou desmaiada a sua dactilógrafa.
2 - Pelas onze horas, Vanderer explicava ao inspector Rosan que suspeitava dos seus dois amigos. Interrogada, a dactilógrafa contou que entrara no escritório para ir buscar um livro quando foi ameaçada por um homem mascarado que lhe apontou uma pistola.
3 - Gritara, e o homem fugira precipitadamente pela janela. Depois caíra desmaiada.
O inspector observou a janela minuciosamente. Após essa inspecção dirigiu-as à dactilógrafa dizendo: - A senhora mentiu!
QUE INDUZIU O INSPECTOR ROSAN A DESCONFIAR DA DACTILÓGRAFA?
***
EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA
Os problemas que hoje divulgamos eram complementados por ilustrações: o primeiro com sete, e o n° 20 com três. Todavia, as cópias que possuímos não reúnem as condições necessárias para serem aqui reproduzidas - o que naturalmente dificulta significativamente o trabalho dos solucionistas. Todavia, não tendo conseguido, entretanto, superar a dificuldade, decidimos publicá-los assim mesmo, para não interromper o Ciclo. Agradecemos a vossa compreensão.
***
SOLUÇÕES:
Problema n.° 19:
Se só se encontrava à vista, no meio da relva, um ombro da senhora Armento, que se encontrava vestido com uma capa impermeável, como poderia Jorge garantir que se tratava de uma senhora? Esta afirmação traiu-o.
Problema n.° 20:
Se um ladrão tivesse fugido precipitadamente pela janela, teria derrubado a mesinha que se encontrava na passagem e certamente que rasgaria ou amachucaria os cortinados. Portanto, a dactilógrafa mentiu.
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TEMA:
AUTORES PORTUGUESES
DE LIVROS POLICIÁRIOS,
SOB PSEUDÓNIMO
I - O AUTOR: W. STRONG ROSS
De nome próprio Francisco Valério Borrecho de Rajanto de Almeida e Azevedo nasceu em Chancelaria, Alter do Chão, Alto Alentejo, em 1888, tendo falecido em Coimbra, onde então residia, em 1988.
Foi autor de vários romances policiais sob o pseudónimo de W. Strong Ross, com os personagens Lord Robert Marcolm, Inspector Ryan, Charles de Winters e Dr. Chase.
“Francisco Valério Borrecho de Rajanto de Almeida e Azevedo, vocacionado para as Letras, chegou a frequentar o Curso de Letras, especializou-se em Arte de Teatro, Canto, Arte de Bem Dizer, Fonética, campo em que escreveu e editou onze peças de teatro, representadas tanto por companhias nacionais, como estrangeiras. Foi dramaturgo, poeta, jornalista, compositor, ensaísta de ópera e de teatro sob os nomes de Francisco Azevedo e Valério de Rajanto e pseudónimo Paulo Santelmo. Possuindo vasta cultura no domínio da comédia, drama, crítica social, história, filosofia, estética, escreveu ainda 13 romances policiários com o pseudónimo de Strong Ross, que despertaram não só a curiosidade, mas também o interesse dos adeptos policiários, porquanto, cada um por si, além do surpreendente e vigoroso poder de confabulação do imaginoso ao real da existência é, plenamente, um estudo ao conhecimento e ao secreto das almas humanas. Notável psicólogo, W. Strong Ross mostra-nos páginas vivas e sangrentas dos seus romances, sem rebuço, a vida, os medos interiores, a estrutura física e psíquica dos seus personagens e a revelação de abomináveis complexos que matam as almas, arruínam as existências, por vezes fatais taras hereditárias conscientes e letais e que não sabem ou não querem fugir, traçando um destino fatalista.”
O último evento social em que participou terá ocorrido em Santarém, onde, a nosso convite, participou no Convívio Policiário que aqui promovemos em 1979, no qual os seus livros integraram a Exposição de Literatura Policial Portuguesa que integrou o programa daquele.
II - BIBLIOGRAFIA POLICIÁRIA DO ESCRITOR:
1. Cemitério Sem Cruzes - (1956):
2. Aquela Casa Amarela - (1859):
3. A Ciência do Monstro -(1959);
4. Os Crimes da Carne - (1959);
5. O Subconsciente Viu os Crimes... - (1959):
6. Um Processo Singular Subconsciente - (1960):
7. O Caso De Leicester Square - 1961):
8. A Morte Escolheu… - (1962):
9. A Rede Vazia - (1963):
10. Tentações Perigosas - (1963):
11. As Corujas Piam De Noite - (1964):
12. O Homem Que Morreu Muitas Vezes - (1964):
13. A Fantástica Experiência: Romance de Ficção e Ciência - (1965):
14. A Escalada dos Espiões - (1967):
15. Na Sombra E No Silêncio (1967):
16. Fantasma No Espelho (1970):
(12 destes livros foram publicados na “Colecção Criminalidade”, da Coimbra Editora).
***
III - OS PERSONAGENS DE W. STRONG ROSS
In “Os Crimes de Carne”
Lorde Robert Marcolm não era madrugador. Levantava-se às nove horas, tomava banho e barbeava-se.
O seu criado particular, Andrews, trouxera-lhe para o seu gabinete de trabalho, o pequeno-almoço: sanduíches de carnes frias, um ovo cozido e café com leite.
Este gabinete, afinal, era uma ampla sala, com tanto de fausto como de severidade. O fausto provinha da riqueza dos móveis, tapeçarias, quadros e objectos decorativos; a severidade ressaltava do aspecto arquitectónico, do alto tecto apainelado, do formidável fogão sustentado por colunas de mármore, e das portadas e janelões de grande amplitude.
Lord Marcolm tinha então a idade de 33 anos. Era ainda solteiro. Criatura admirável! Um conjunto de qualidades físicas, mentais e morais, digno do mais alto apreço. A Natureza foi-lhe pródiga.
Bastante alto, muito belo, os olhos cinzentos e luminosos, os cabelos-castanho claros, ondulados e fartos, e, na pele, uma palidez aristocrática que lhe concedia alta distinção, Lord Robert Marcolm era um homem perfeito, um daqueles exemplares humanos admiráveis, e dignos de servir de modelo para as estátuas de Apoio e Antinos. Forte e esbelto, mestre em desportos, riquíssimo, barão e marquês hereditário, ainda possuía, como suporte máximo destas óptimas condições, urna estrutura moral, perfeita e imaculada. Senhor de uma inteligência forte, viva, era formado em Ciências Histórico-Filosóficas. Possuía grande cultura geral. Era um sociólogo, um filósofo, um psicólogo. O seu amor pelos assuntos de Criminologia revelava a formação do seu espírito ordenado e justo. Sem egoísmo, e até com sacrifícios, perseguia o crime por amor à ordem social e para defesa das pobres vítimas dos criminosos. Não tolerava o mal, quando praticado sem razão nem direito. E mesmo com o direito da razão, não aceitava o supremo crime, isto é, o crime do homicida. Só admitia, em certas condições excepcionais, o caso de legítima defesa, ou seja, o direito de alguém matar a fera, ou o homem, que o ia matar.
Enfim: o seu carácter afectuoso e leal, o seu trato, elegante e cortês, tornavam-no uma criatura exemplar, amada por todos. Era o aristocrata, o homem de bem, em tudo. E também era “le prince charant”, o ideal sonhado por muitas e belas Ladies...
Ah! Mas ele era tão difícil, tão discreto...
Eram dez horas e meia quando Lord Robert Marcolm entrou no gabinete do Inspector Ryan, na Scotland Yard.
- Oh! Milorde! Que grande prazer em vê-lo!
-Viva, meu caro Ryan. Folgo de o ver bom.
Os dois homens, amigos sinceros e colaboradores desde há alguns anos na caça aos criminosos, apertaram-se as mãos com a maior cordialidade.
- Já sei o que o trouxe aqui, milorde. O assassinato de Lady Emily Jason!
- Acertou, Ryan! Estou bastante impressionado.
IV - O PENSAMENTO DE UM PERSONAGEM
In “Os Crimes de Carne”
Estou na perspectiva de mais um facto sem remissão. Tenho de o realizar. A carne é cheia de fomes e sedes. E estas, matam-se com a morte de outra carne. É uma lei fatal; mas ignorando-a, forjou-se outra lei. E esta determina que é crime toda a morte forçada. Menos a dos animais! Coitados! Não fazem leis que lhes defendam a pele. Ah! Mas os desejos da carne não admitem peias, mesmo nos humanos e mesmo à custa de mexer nas fatalidades. A carne, quer carne: viva e morta.
E a Fatalidade, com a sua mão de chumbo enrubescido, chama-me e aponta-me o velho caminho do meu Destino. É um caminho inevitável, bem o sei... E é a chama vermelha do sangue que o alumia. Decerto... A força causal do acontecer pessoal e a nossa única verdade. Mas saberei eu, exactamente, qual é a sua verdade? E alguém sabe, exactamente, qual é a sua verdade? Quais as etapas de emoções e de sensações e quais os trabalhos do cérebro que forçam uma pessoa a engendrar o seu crime? Quais as razões das causas? As aparências forjam as suas razões de verdade, mas nem as aparências e nem as suas razões são iguais para todos. Há aqui uma contingência e uma relatividade que reduzem a fumo as opiniões preconceituosas. Porquê? E isso, que importa? Não. Ninguém me pode interrogar sobre o porquê do que faço, do que fiz e do que farei: - o inexorável não dá respostas, porque não há porquê? E para quê? Portanto... o meu desdobramento é uma verdade da vida. Verdade que é quase inverosímil, por ser quase fantástica. Assim, sou como que irreal, um motivo que não provoca opiniões, já que não invoco as minhas razões nem procuro o aplauso de outras razões. O meu segredo - que é a minha vida - põe-me fora da vida, ainda que eu esteja dentro dela, e que, nela, crie vidas e aniquile vidas... O enredo dos paradoxos? Bem sei... Eles são os frutos inverosímeis, mas forçosos, das minhas anomalias. Sou urna Fatalidade engendrada, e vítima de outras Fatalidades.
Para tudo há razões: o nada, não tem matriz para conceber filhos ou, como quem diz, resultados. Mas felizmente que as razões das coisas não são idênticas para todos: há discrepâncias e também há o vício da discórdia... Da discórdia, esse produto da moral. Se não houvesse moral, só haveria inocência. Até crime... Não poderia ser outra coisa, senão um acto inocente da Natureza: minhoca contra minhoca, tigre contra tigre: tragédias sem comentários morais e jurídicos. Apenas a paz, e o triunfo da vida mais válida, para o vencedor.

DOMINGOS CABRAL DA SILVA
»»» Publica-se aos dias 15 e último de cada mês! «««

Saudações Policiárias




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