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NOITE INTERMINÁVEL EM TOBAGO
Chegara a Tobago numa tarde de Março, sozinha, a suar por todos os poros,
apenas com o seu nome bíblico e um saco de plástico de supermercado na mão,
contendo escassos pertences, pois a sua pequena trolley-bag preta havia-se
extraviado pelo caminho, não chegando ao seu aeroporto de escala, em Londres.
Após uma longa e extenuante viagem, surpreendeu-se ao sentir um bafo quente no
rosto e ao avistar uma paisagem exuberante logo ao pisar a pista do aeroporto.
Era a sua primeira viagem intercontinental e vinha de muito longe, do seu
rectangulozinho à beira-mar plantado, junto ao oceano Atlântico. Sabia que a
prima do seu amigo e correspondente, de há quase duas décadas, iria esperá-la e
lá estava ela a acenar-lhe, na zona das chegadas, com um largo sorriso nos
lábios. Apresentaram-se e Cherise levou-a dali, na sua carrinha. Sentaram-se a
descansar, numa improvisada esplanada de estrada, onde tomaram uma bebida de
fim de tarde e conversaram longamente. Gostou da casa colonial, em tons fortes
de rosa e azul, onde iria pernoitar, sem a companhia de ninguém. Sara
apercebeu--se que aquela residência estava num sítio ermo e calmo, perto do
mar. Tinha dois pisos. Cá em baixo estava a salinha de visitas, pequena e
acolhedora, onde acendeu o aparelho de televisão, porque achou desde logo
aquele silêncio confrangedor. Lá em cima havia três quartos, a cozinha, onde
arrumou as compras na geleira, e uma minúscula toilette, a cujos lavabos se
dirigiu, para iniciar a lavagem dos dentes. Reparara que o relógio da cozinha
marcava já onze horas da noite. Encontrava-se ainda na casa de banho e a
preparar-se para se ir deitar quando ouviu um barulho estranho que vinha de
baixo. Espreitou pela exígua janela e vislumbrou um par de vultos junto à porta
exterior. Não demorou a dar-se conta de que se tratava de dois homens magros,
aparentemente jovens, e com um aspecto assustador, visto que eram negros e
trajavam de negro, segurando uns paus compridos. Sara notou que mexiam nervosamente
na maçaneta, tentando rodá-la. Teve uma reacção imediata e foi pé ante pé
trancar a porta do quarto e apagar a luz. Trancou-se igualmente por dentro
naquele WC e esperou, com o coração a bater descompassadamente. Tentou
encontrar ali algo com que se pudesse defender, caso eles conseguissem arrombar
as portas e entrar. Pegou no reservatório de loiça do autoclismo e sentiu-se
ridícula. Estava completamente à mercê deles. Ganhou coragem e voltou a
espreitar. Os dois nativos continuavam por lá, na mesma azáfama e com um
automóvel preto por perto. Manteve-se silenciosa, imóvel, mas com tremores
incontroláveis, uma sensação de pânico e frio gélido. Olhou inúmeras vezes para
o seu relógio de pulso e viu os minutos e as horas a passar muito lentamente.
Temeu o pior. Pensou que o mais certo seria vir a ser surpreendida de um
momento para o outro, ver a porta metida para dentro, ver-se atacada e violada.
Não iria mais regressar ao seu país natal. Houve uma altura em que se foram
embora no carro preto e ela quase respirou de alívio, alimentando ainda uma
esperança. Mas cedo regressaram. Rezou para que a manhã surgisse depressa e a
rua voltasse à normalidade, com as pessoas a ir para o trabalho. Sentia-se tão
tensa e exausta, com uma enorme necessidade de repousar, porém o medo nem
permitia que fechasse os olhos. Entretanto, começou a ouvir-se uns batuques ao
longe, o que tornou a situação ainda mais assustadora. Finalmente amanhecera.
Assegurou-se de que eles já lá não estavam, assim como o carro. Desceu as escadas
e telefonou ao amigo, a contar o sucedido. Ele prometeu voar nesse mesmo dia de
Trinidad e ir ter com ela. Ao chegar, enlaçou-a fortemente num abraço fraterno
e baptizou-a de “The Adventure Girl“.
Cris (Maria Cristina de Aguiar)
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A ALEGRIA DAS PEDRINHAS
Johnny despertou ao sabor da brisa da manhã e
da maré que subia na areia da praia.
Não lhe ocorreu nada nesse lento acordar. Reclinou
um pouco para cima o corpo deitado e limitou-se a olhar em redor. Por fim fitou
a linha do horizonte e a imensidão de céu e de mar à sua frente. O murmúrio das
ondas era um rumor agradável e no zénite o Sol já ia alto. Onde estaria?
Estranhamente não se lembrava de nada, de onde vinha e quem era. Mas esse facto
não pareceu preocupá-lo. Era como se voltasse a ser criança de novo e
recomeçasse os seus passos neste mundo outra vez. Sentia-se leve e tranquilo e
havia um bem-estar ali, naquele momento, de que ele não se lembrava alguma vez
ter sentido. Pôs-se de pé e começou a caminhar, descalço, na areia da praia.
Olhou de novo para todos os lados, agora já completamente desperto. Do lado
direito apenas o oceano, primeiro o recife de águas rasteiras e de um azul
marinho brilhando em remoinhos à luz do Sol; mais ao longe orlando a costa, o
azul escuro do mar profundo. Daquele lado e para a frente e para trás, nada
mais a não ser o Céu, o Sol e o Oceano. Johnny olhou então para o lado esquerdo
e viu uma paisagem difícil de descrever. As sensações que perpassaram pelo seu
ser foram igualmente estranhas de descrever; por um lado essa impressão única
de estar longe, muito longe de casa, onde quer que ela fosse; outra era a de
ter estado ali algures noutro tempo. Havia um recorte de montanha vulcânica que
se impunha por entre a densa vegetação um pouco por todo o lado. Havia uma
atmosfera tranquila, havia rumores de pássaros e aves pelo ar no pano de fundo
que era o rumor do oceano. Era como se aquele local tivesse estado ali sempre à
sua espera e Johnny tivesse finalmente a oportunidade de ir ao seu encontro.
Naquele momento, sem se lembrar de quem era ou de onde viera, sentiu-se feliz.
Não se lembrava de se ter sentido feliz assim. Sem se dar conta um largo sorriso
de bonomia preencheu o seu rosto. Apesar de não saber o que fazia e como
chegara ali, o seu estado de espírito era de total apaziguamento. Não havia
passado nem futuro. E no entanto lembrou-se do medo, da insatisfação, das
dúvidas que com ele sempre viveram. Mas ali nada disso havia, sabia que podia
confiar naquele Deus, na beleza das coisas, na alegria que transbordava dentro
de si. Sempre fora um ser de emoções, mas a sensibilidade trouxera o medo
também, o defender-se de tudo o que lhe podia fazer mal nunca lhe permitira
realmente libertar-se. Amava o estar vivo e ainda o poder partilhar com os
outros essa alegria.
Finalmente chegara ao topo da montanha. E o que
para Johnny era simplesmente mais desconcertante naquele lugar era a candura do
estar, a inocência do olhar, a confiança inabalável de sorrir. Johnny
agachou-se por momentos, respirando levemente. As ondas do mar subiam na areia
molhada; havia uma infinidade de despojos trazidos pela maré, entre os quais
uma colecção multicolor de conchas e pedrinhas. Johnny ajoelhou-se e começou a
senti-las, uma a uma, tal qual fossem pedras preciosas. Naquele momento, o
mundo ficou em suspenso e estava preso nas suas mãos. O Sol veio brincar e fez
as pedrinhas esvoaçarem num mágico cintilar. Johnny quis ficar ali para sempre,
como se fosse um pescador de pedrinhas. Poderia apanhá-las, escolhê-las, por
dias a fio, até, quem sabe, encontrar a pedra perfeita. Então deixar-se-ia
adormecer, como se lhe contassem uma história antiga de mil anos, do princípio
dos tempos e embalado pelo singelo rumor do oceano embarcaria docemente rumo à
eternidade.
Peter Pan
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NA PRÓXIMA EDIÇÃO, 8 de Junho de 2025, apresentaremos mais dois CONTOS,
de Maio e Junho de 2019, da Autoria de A. Raposo e Rigor Mortis.
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