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domingo, 15 de fevereiro de 2026

Mary Lou, Mary Lou? Onde estavas tu? Romance ☝ EFL Dezasseis Episódios Mais Um! Oito Autores 2010 (TPL)

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CAPÍTULO OITO

A Cultura Made In USA

  

De: Búfalos Associados

 

Ao bando dos incorrigíveis polícias de domingo:

Razões que não vêm agora ao caso, fizeram com que me tornasse amigo de uma jovem portuguesa de nome Kátia que tem sido em diversas circunstâncias um amparo carinhoso em alguns momentos da minha já longa vida de imigrante. Conhecemo-nos durante umas férias que passei em Portugal e ela visita-me regularmente em Los Angeles, onde exerço a actividade de “marchand” e crítico de arte vai para 50 anos. Eu pago-lhe as passagens e tento sempre satisfazer todas as necessidades que ela manifesta. Curiosamente deixei de ter notícias dela desde o Outono passado. Sigo, com alguma relutância, pela internet, a incrível sequência de vexames com que um grupo de frustrados senis tentam atingir o bom nome de uma família, filha, mãe e tia, senhoras, pelo que sei, de reputação impoluta e dignas do maior respeito.

Não posso, pois, deixar de vos dar conta de uma passagem de uma carta que acabo (finalmente…) de receber da minha querida Kátia e que revela mais uma vez a maldade feroz com que a tentam denegrir. Diz ela, depois das habituais manifestações de carinho que desinteressadamente sempre me dispensa:

“Imagine o tio (é assim que ela me trata) o que agora me está a acontecer. No final do Verão passado conheci aqui em Los Angeles, para onde vim morar como costureira de camarins de teatro da minha tia Mary, um jovem português muito simpático que falava várias línguas incluindo o madeirense, e que andava por cá em gozo de curtas férias. Aquela cara não me era estranha, mas confesso que nem sequer fiquei o saber o seu nome. A verdade é que não consegui resistir ao seu encanto e tivemos uma aventura de curta duração, mas intensa e fulgurante. Algum tempo depois verifiquei que estava grávida e como a minha mãe sempre me ensinou que o que Deus nos dá não é para deitar fora, a criança nasceu no passado dia 25 de Junho. Entretanto tinha já tentado localizar o pai. Fui ao Consulado de Portugal e mostrei uma fotografia dele que lhe tinha tirado com o meu telemóvel. O tio não pode imaginar o rebuliço que foi naquele Consulado. Risos, gritos, correrias, o diabo. Ainda hoje não percebo porquê. O que me disseram foi que iam conseguir localizar o pai do menino que ia nascer. Realmente daí a alguns dias fui contactada por um advogado português que me propôs que, assim que a criança nascesse, a troco de uma quantia fabulosa de que me pagou logo metade, eu deveria entregar a criança à guarda exclusiva do pai. E assim se fez, assinei uma catrefada de papéis, a coisa ficou assente e tudo foi cumprido conforme o combinado. Claro que tenho muita pena de não voltar a ver o meu filho. Ainda hoje recordo com saudade os pontapés que ele me dava na barriga. Mas o balúrdio que recebi dá-me para vir a criar, se quiser, uma dúzia de crianças. Há, no entanto, outra coisa que me anda a incomodar. Então não é que as minhas amigas andam agora por aí a dizer que eu sou a mãe do filho de um tal Cristiano Ronaldo, o futebolista mais bem pago do Mundo? Meu Deus, eu sei lá quem é o Cristiano Ronaldo! Eu nem gosto, nem percebo nada de futebol!”

E pronto, meus senhores. Vejam bem até onde pode chegar a maldade dos homens. E das mulheres também, claro. Espero que esta carta e o que ela contém possa vir a causticar as vossas consciências de gente maldosa e cruel.

Los Angeles, 13 July, 2010

Andy Saaavedra 

(Crítico de Arte)

P.S. Saaavedra com três “as” porque a minha mãe era de apelido Sá e o meu pai Saavedra. No registo resolveram simplificar para Saaavedra

 


 

»»» VOLTAMOS, NO PRÓXIMO DOMINGO, 22 DE FEVEREIRO DE 2026, COM A DIVULGAÇÃO DO CAPÍTULO NOVE - As Preocupações da Nélinha, de: ZÉ, DESTE IRREVERENTE ROMANCE POLICIÁRIO.



 

👌 FELIZ Domingo!


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👣 Primórdios da Problemística Policiária Portuguesa »»» PPPP »»» CORREIO POLICIAL - Domingos Cabral ☝ (Re)publicação -- "CORREIO POLICIAL" de: 10.SET.2021 🧐 A 2.ª Parte dos "PPPP" com o Ciclo L. FIGUEIREDO

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 *** 53.ª Edição! 🎓 📖

 

 

PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA PORTUGUESA

POR: DOMINGOS CABRAL

 

2.ª PARTE - CICLO L. FIGUEIREDO 


*  *  *  *  *

 

SECÇÃO “O LEITOR É SHERLOCK HOLMES?”

 

 

P R O B L E M A S    P O L I C I A I S

O leitor é

Sherlock Holmes?

COMO OS GRANDES POLÍCIAS DESCOBREM

OS CRIMES MAIS MISTERIOSOS

 

QUERE O LEITOR FAZER DE «DETECTIVE»?

 


*  *  *  *  *

SECÇÃO “O LEITOR É SHERLOCK HOLMES?”

8.º PROBLEMA:

"QUEM ASSASSINOU O INGLÊS WHITE?"

        Corria ameno Setembro de 1926 na Figueira da Foz. Entre os arbustos de um jardim, não longe dos Casinos, foi encontrado o cadáver do súbdito inglês Edward White, jogador profissional que há semanas estava hospedado num dos principais hotéis.

        O sub-inspector de saúde que examinou o corpo de White verificou que fora vitimado há seis horas pelo menos, por uma bala de pistola que lhe entrara pelas costas em direcção ao coração, dando-lhe morte quase instantânea e sem que o fato se apresentasse chamuscado. Nas algibeiras, que tinham evidentemente sido rebuscadas, achava-se a carteira com bastante dinheiro e um valioso relógio de oiro. Não houve forma de encontrar a pistola.

        Junto de um maciço de verdura havia muitas pegadas que condiziam com a de White, indicara que andara ali durante bastante tempo para trás e para diante. No chão havia três pontas de cigarro "Gold Flake", iguais aos que estavam na cigarreira de White. Não restava dúvida de que esperava ali alguém durante tempo apreciável. No local do crime havia ainda um fósforo queimado, uma caixa de fósforos vazia, um bocado de cartão fino quase completamente queimado e com letras legíveis, como se vê no desenho.

        Os agentes encarregados da investigação concluíram que aqueles objectos tinham pertencido ao assassino. White não usava fósforos por não se encontrar a respectiva caixa, mas sim um luxuoso isqueiro, que mostrava ter bastante uso.

        Como a noite do crime fora muito escura e o local era pouco iluminado, os agentes admitiram que, para a busca nas algibeiras, teria sido preciso luz. O gatuno acendera o último fósforo da caixa e como este não chegara alumiou-se com o cartão, cuja proveniência se tornara em importante questão em resolver. Estaria na sua algibeira, de onde o tirou por não encontrar na ocasião outra coisa que ardesse?

        Tendo o assassino abandonado os restos carbonizados não lhe podia fazer supor que deixava perigoso rasto.

        Sem que na ocasião calculassem o valor a dar ao cartão queimado os agentes fizeram buscas ao quarto do hotel em que White estava hospedado. Daqui resultou a apreensão de uma carta que viera de manhã dirigida à vítima e que fora deitada na noite anterior no correio.

        Via-se que fora escrita precipitadamente em inglês por mão de mulher e dizia:

 

Meu querido Edward

Esperei até à última ir ter contigo. Não te apoquentes, tudo se há-de arranjar. Por motivo imprevisto ele veio do jogo muito cedo e disse-me que fizesse as malas imediatamente. Partimos dentro de uma hora. É qualquer negócio de bolsa. Conto voltar dentro de cinco ou seis dias e então iremos para longe, muito longe, para a Índia, África ou Brasil, para onde quiseres. Vou experimentar mandar-te esta por um “groom”, mas se for perigoso vai pelo correio. Abraça-te a tua para sempre

M

 

        Apresentava-se agora ao agente a dificuldade de dar com uma mulher que escrevesse inglês cujo nome começasse por M. e pertencendo a uma família onde houvesse um homem que a tivesse levado para qualquer parte na noite anterior. O movimento de banhistas era grande e entre bastantes dezenas que naquela noite tinham partido, de quais se trataria e para onde tinham ido? O exame das saídas nos registos dos hotéis não permitia claramente identificar, só por si, quem escrevera a carta, pelo que os agentes anotaram como principais suspeitos:

 

        1 - Maude Rhond e Mr. Rhond, de Londres, pai e filha, que partiram para Espanha;

        2 - Mary Freeman e Fred Freeman, mulher e marido, de Búfalo, N. Y., partiram para Paris;

        3 - Manuela Alba Foster e William Foster, ela de origem espanhola e ele inglês, casados, partiram para Barcelona;

        4 - A família De Ruyter, de Roterdam, Holanda, composta de pai Andreas De Ruyter, duas filhas, Miriam De Ruyter e Louisa De Ruyter e filho Simon De Ruyter, que partiram para Roma;

       

        Todos tinham partido na noite anterior, mas as informações colhidas nos hotéis pouco mais adiantaram.

        Das portuguesas que saíram nessa noite não constava que qualquer escrevesse inglês.

        A família De Ruyter, como em geral as pessoas da boa sociedade holandesa, falavam correctamente inglês. O pai era idoso e doente e permanecera no quarto nessa noite até abandonar o hotel. Simon era descrito pelas criadas como rapaz pouco corpulento, magro, irrequieto e folgazão. Estivera no Casino e regressara cedo, tendo dito a um criado que mais uma vez fora infeliz. Depois de visitar os aposentos da família, tornou a sair sem que se soubesse mais nada. As informações que se referiam às restantes famílias foram também difíceis de obter. Os hóspedes do hotel em que tinham estado descreviam Maud Rhond como muito elegante e bonita, mas muito sossegada e reservada e o pai como severo e carrancudo, débil, baixo e coxeando da perna esquerda, cabelo e bigode grisalhos, deixando perceber que tinham sido loiros.

        Os Freeman eram dois jovens americanos aparentemente ricos. A mulher, de feições correctas, viva e alegre que, de pequena estatura, tornava-se pela sua linda cabeleira de loira.

        O marido, insinuante, mas pouco falador, era alto e forte, apresentando-se como todos os anglo-saxões irrepreensivelmente barbeado. Deveriam ter pouco mais de vinte anos.

        Sobre os Rhond e Freemans não foi possível apurar o que tinham feito antes da partida.

        Manuela Alba Foster era uma espanhola, que não desmerecia da fama justamente adquirida pelas suas patrícias. Alegria esfusiante, talhe mediano e de linhas académicas, feições de beleza pouco vulgar. O marido William era inglês, comerciante, taciturno, bebedor impenitente de cerveja, gordo fora do vulgar, obeso mesmo, e de uma corpulência a que bem poderíamos fazer emparceirar com a do nosso querido actor Chaby. Pouco saía durante a noite, passando os dias na esplanada a contemplar o mar.

        Os agentes não sabiam que expediente tomar. Deveriam seguir todas as famílias suspeitas até ao seu destino? Era trabalhoso e talvez inútil. Tornava-se preciso limitar as investigações. Foi o que fizeram seguindo o conselho de um “detective” muito viajado na Inglaterra e na América.

 

        Dos lados que o leitor já está de posse deduziu em que família figurava o assassino que, tendo sido perseguido, foi preso e perante a reconstituição completa do crime acabou por confessar o assassinato de Edward White.

 

        1.º - Qual das famílias perseguiria o leitor?

        2.º - Quem assassinou Edward White?

        3.º - Como o deduziu o “detective”?

 

 *  *  *  *  *

 


SOLUÇÃO DO PROBLEMA:

        1.º - A família Freeman.

        2.º - Fred Freeman, o americano, marido de Mary Freeman foi o assassino do White.

        3.º - O “detective” descobriu-o pelo pedaço de cartão queimado, que reconheceu como parte de um bilhete de pesagem da Farmácia Barral, em Lisboa, e que nós acima reproduzimos.

        A polícia que primeiro tratou do caso concluiu logo que o assassino tinha tirado da algibeira o que primeiramente lhe viera à mão para acender no último fósforo que possuía e deduziu da descrição de Freeman que ele devia ter os 98,400 de peso. Das famílias suspeitas ele era o único homem que se ajustava àquele. Simon Ruyter e Mr. Rhond foram descritos como magos e baixos. Foster, corno exageradamente corpulento e, portanto, pesado, mais que os 98,400 quilos. Era, pois, mais lógico seguir os Freemans para Paris que as restantes famílias.

        Soube-se depois que Freeman suspeitava que a mulher mantinha correspondência com Edward White e conseguira apoderar-se de uma carta que este lhe dirigira. Abriu o sobrescrito com uma faca quente, leu a carta, fechando-a novamente para que a mulher nada suspeitasse.

        A carta era a que marcava a entrevista para aquela noite no jardim para resolverem a fuga e tinha combinado às 9 horas e 30, por ser a hora a que Freeman estava habitualmente no Casino. Freeman não se deu por achado, foi para o Casino como, de costume, mas saiu mais cedo indo dizer à mulher que um negócio urgente ia requerer a sua apresentação num Banco de Paris, o mais depressa possível. Acrescentou que pouco se demoraria e ela, para não levantar suspeitas, acedeu, começando logo a arranjar as malas para a partida. Foi Freeman que se apresentou na entrevista matando White a sangue-frio. Procurou depois rapidamente nas algibeiras do morto as cartas da mulher que calculava que ele teria consigo, encontrando três que ajudaram a confirmar a sua culpabilidade.

       Mary Freeman preferira enviar a carta pelo correio em vez de a mandar pelo "groom" do hotel com receio de se comprometer.

 

*  *  *  *  *

 


 


DOMINGOS CABRAL DA SILVA

 »»» Publica-se aos dias 15 e último de cada mês! «««