🧐 🕵️ Primórdios da Problemística Policiária
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*** 53.ª Edição! 🎓 📖
PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA
PORTUGUESA
POR: DOMINGOS CABRAL
2.ª PARTE - CICLO L. FIGUEIREDO
* *
* * *
SECÇÃO “O LEITOR É SHERLOCK HOLMES?”
P R O B L E M A S P O L I C I A I S
O leitor é
Sherlock Holmes?
COMO OS GRANDES POLÍCIAS DESCOBREM
OS CRIMES MAIS MISTERIOSOS
QUERE O LEITOR FAZER DE «DETECTIVE»?
* * * * *
SECÇÃO “O LEITOR É SHERLOCK HOLMES?”
8.º PROBLEMA:
"QUEM ASSASSINOU O INGLÊS WHITE?"
Corria ameno Setembro de 1926 na Figueira da Foz.
Entre os arbustos de um jardim, não longe dos Casinos, foi encontrado o cadáver
do súbdito inglês Edward White, jogador profissional que há semanas estava
hospedado num dos principais hotéis.
O
sub-inspector de saúde que examinou o corpo de White verificou que fora
vitimado há seis horas pelo menos, por uma bala de pistola que lhe entrara
pelas costas em direcção ao coração, dando-lhe morte quase instantânea e sem
que o fato se apresentasse chamuscado. Nas algibeiras, que tinham evidentemente
sido rebuscadas, achava-se a carteira com bastante dinheiro e um valioso
relógio de oiro. Não houve forma de encontrar a pistola.
Junto
de um maciço de verdura havia muitas pegadas que condiziam com a de White,
indicara que andara ali durante bastante tempo para trás e para diante. No chão
havia três pontas de cigarro "Gold Flake", iguais aos que estavam na
cigarreira de White. Não restava dúvida de que esperava ali alguém durante
tempo apreciável. No local do crime havia ainda um fósforo queimado, uma caixa
de fósforos vazia, um bocado de cartão fino quase completamente queimado e com
letras legíveis, como se vê no desenho.
Os
agentes encarregados da investigação concluíram que aqueles objectos tinham
pertencido ao assassino. White não usava fósforos por não se encontrar a
respectiva caixa, mas sim um luxuoso isqueiro, que mostrava ter bastante uso.
Como a
noite do crime fora muito escura e o local era pouco iluminado, os agentes
admitiram que, para a busca nas algibeiras, teria sido preciso luz. O gatuno
acendera o último fósforo da caixa e como este não chegara alumiou-se com o
cartão, cuja proveniência se tornara em importante questão em resolver. Estaria
na sua algibeira, de onde o tirou por não encontrar na ocasião outra coisa que
ardesse?
Tendo
o assassino abandonado os restos carbonizados não lhe podia fazer supor que
deixava perigoso rasto.
Sem
que na ocasião calculassem o valor a dar ao cartão queimado os agentes fizeram
buscas ao quarto do hotel em que White estava hospedado. Daqui resultou a
apreensão de uma carta que viera de manhã dirigida à vítima e que fora deitada
na noite anterior no correio.
Via-se
que fora escrita precipitadamente em inglês por mão de mulher e dizia:
Meu querido Edward
Esperei até à última ir ter contigo. Não te
apoquentes, tudo se há-de arranjar. Por motivo imprevisto ele veio do jogo
muito cedo e disse-me que fizesse as malas imediatamente. Partimos dentro de
uma hora. É qualquer negócio de bolsa. Conto voltar dentro de cinco ou seis dias
e então iremos para longe, muito longe, para a Índia, África ou Brasil, para
onde quiseres. Vou experimentar mandar-te esta por um “groom”, mas se for
perigoso vai pelo correio. Abraça-te a tua para sempre
M
Apresentava-se
agora ao agente a dificuldade de dar com uma mulher que escrevesse inglês cujo
nome começasse por M. e pertencendo a uma família onde houvesse um homem que a
tivesse levado para qualquer parte na noite anterior. O movimento de banhistas
era grande e entre bastantes dezenas que naquela noite tinham partido, de quais
se trataria e para onde tinham ido? O exame das saídas nos registos dos hotéis
não permitia claramente identificar, só por si, quem escrevera a carta, pelo
que os agentes anotaram como principais suspeitos:
1 -
Maude Rhond e Mr. Rhond, de Londres, pai e filha, que partiram para Espanha;
2 -
Mary Freeman e Fred Freeman, mulher e marido, de Búfalo, N. Y., partiram para
Paris;
3 - Manuela
Alba Foster e William Foster, ela de origem espanhola e ele inglês, casados,
partiram para Barcelona;
4 - A
família De Ruyter, de Roterdam, Holanda, composta de pai Andreas De Ruyter,
duas filhas, Miriam De Ruyter e Louisa De Ruyter e filho Simon De Ruyter, que
partiram para Roma;
Todos tinham partido na noite anterior,
mas as informações colhidas nos hotéis pouco mais adiantaram.
Das portuguesas que saíram nessa noite
não constava que qualquer escrevesse inglês.
A família De Ruyter, como em geral as
pessoas da boa sociedade holandesa, falavam correctamente inglês. O pai era
idoso e doente e permanecera no quarto nessa noite até abandonar o hotel. Simon
era descrito pelas criadas como rapaz pouco corpulento, magro, irrequieto e
folgazão. Estivera no Casino e regressara cedo, tendo dito a um criado que mais
uma vez fora infeliz. Depois de visitar os aposentos da família, tornou a sair
sem que se soubesse mais nada. As informações que se referiam às restantes famílias
foram também difíceis de obter. Os hóspedes do hotel em que tinham estado
descreviam Maud Rhond como muito elegante e bonita, mas muito sossegada e
reservada e o pai como severo e carrancudo, débil, baixo e coxeando da perna
esquerda, cabelo e bigode grisalhos, deixando perceber que tinham sido loiros.
Os Freeman eram dois jovens americanos
aparentemente ricos. A mulher, de feições correctas, viva e alegre que, de
pequena estatura, tornava-se pela sua linda cabeleira de loira.
O marido, insinuante, mas pouco
falador, era alto e forte, apresentando-se como todos os anglo-saxões
irrepreensivelmente barbeado. Deveriam ter pouco mais de vinte anos.
Sobre os Rhond e Freemans não foi
possível apurar o que tinham feito antes da partida.
Manuela Alba Foster era uma espanhola,
que não desmerecia da fama justamente adquirida pelas suas patrícias. Alegria
esfusiante, talhe mediano e de linhas académicas, feições de beleza pouco
vulgar. O marido William era inglês, comerciante, taciturno, bebedor impenitente
de cerveja, gordo fora do vulgar, obeso mesmo, e de uma corpulência a que bem
poderíamos fazer emparceirar com a do nosso querido actor Chaby. Pouco saía
durante a noite, passando os dias na esplanada a contemplar o mar.
Os agentes não sabiam que expediente
tomar. Deveriam seguir todas as famílias suspeitas até ao seu destino? Era
trabalhoso e talvez inútil. Tornava-se preciso limitar as investigações. Foi o
que fizeram seguindo o conselho de um “detective” muito viajado na Inglaterra e
na América.
Dos lados que o leitor já está de posse
deduziu em que família figurava o assassino que, tendo sido perseguido, foi
preso e perante a reconstituição completa do crime acabou por confessar o
assassinato de Edward White.
1.º -
Qual das famílias perseguiria o leitor?
2.º -
Quem assassinou Edward White?
3.º - Como
o deduziu o “detective”?
* * *
* *
SOLUÇÃO DO PROBLEMA:
1.º - A
família Freeman.
2.º -
Fred Freeman, o americano, marido de Mary Freeman foi o assassino do White.
3.º -
O “detective” descobriu-o pelo pedaço de cartão queimado, que reconheceu como
parte de um bilhete de pesagem da Farmácia Barral, em Lisboa, e que nós acima
reproduzimos.
A
polícia que primeiro tratou do caso concluiu logo que o assassino tinha tirado
da algibeira o que primeiramente lhe viera à mão para acender no último fósforo
que possuía e deduziu da descrição de Freeman que ele devia ter os 98,400 de
peso. Das famílias suspeitas ele era o único homem que se ajustava àquele.
Simon Ruyter e Mr. Rhond foram descritos como magos e baixos. Foster, corno
exageradamente corpulento e, portanto, pesado, mais que os 98,400 quilos. Era,
pois, mais lógico seguir os Freemans para Paris que as restantes famílias.
Soube-se
depois que Freeman suspeitava que a mulher mantinha correspondência com Edward
White e conseguira apoderar-se de uma carta que este lhe dirigira. Abriu o
sobrescrito com uma faca quente, leu a carta, fechando-a novamente para que a
mulher nada suspeitasse.
A
carta era a que marcava a entrevista para aquela noite no jardim para
resolverem a fuga e tinha combinado às 9 horas e 30, por ser a hora a que
Freeman estava habitualmente no Casino. Freeman não se deu por achado, foi para
o Casino como, de costume, mas saiu mais cedo indo dizer à mulher que um negócio
urgente ia requerer a sua apresentação num Banco de Paris, o mais depressa
possível. Acrescentou que pouco se demoraria e ela, para não levantar
suspeitas, acedeu, começando logo a arranjar as malas para a partida. Foi
Freeman que se apresentou na entrevista matando White a sangue-frio. Procurou
depois rapidamente nas algibeiras do morto as cartas da mulher que calculava
que ele teria consigo, encontrando três que ajudaram a confirmar a sua
culpabilidade.
Mary
Freeman preferira enviar a carta pelo correio em vez de a mandar pelo
"groom" do hotel com receio de se comprometer.
* * *
* *

DOMINGOS CABRAL DA SILVA
»»» Publica-se aos dias 15 e último de cada mês! «««
