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domingo, 8 de fevereiro de 2026

Mary Lou, Mary Lou? Onde estavas tu? Romance ☝ EFL Dezasseis Episódios Mais Um! Oito Autores 2010 (TPL)

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CAPÍTULO SETE

As Memórias de Nélinha 

Em breve nos palcos portugueses 

 


De: Inspector Boavida


As nuvens de mistério que ensombram a memória da infeliz Nelinha e escondem as razões do inesperado desaparecimento da sua gémea Mary Lou foram adensadas nas últimas semanas por escritos contraditórios (e alguns forjados) de gente recalcada, ressentida, frustrada, mal resolvida. Mas eis que, de súbito, fez-se luz nos negros céus que o demo governa e uma das estrelas mais luzentes do firmamento da meca do cinema iluminou a triste realidade: Nélinha e Mary Lou são mesmo finadas. Ambas estão mortas e… bem enterradas (como sempre desejaram em vida!).

Foi John Joseph Trêsvoltas quem dissipou as trevas que toldavam os complexos e apertados caminhos da verdade. Segundo ele, a luso-americana Mary Lou, sua parceira de contracena em mais de vinte filmes depois de ter repartido com ela o palco em diversos musicais na Broadway, no início da sua carreira como dançarino alguns anos antes de conquistar Hollywood, resistiu à morte de Nélinha a custo de muitos anti-depressivos e de sucessivas curas de sono, mas não suportou o desgosto de saber da fuga da sua santa sobrinha Kátinha de casa dos pais adoptivos.

Para Trêsvoltas, porém, Nelinha morreu, mas… Mary Lou não! Actrizes como Mary Lou ou Mary Lyn são imortais. E ele promete fazer tudo o que estiver ao seu alcance para manter viva na nossa memória colectiva a lendária vedeta de origem lusa. No plano imediato, o popular actor compromete-se a não deixar morrer um dos mais bonitos e antigos sonhos de Mary Lou: mostrar a sua arte nos palcos portugueses. O projecto que ele se propõe recuperar estava agendado para a próxima temporada teatral, com estreia na cidade do Porto, entretanto cancelado por motivos óbvios.

O projectado espectáculo, encenado por John Trêsvoltas, apresentaria Maria Lou em todo o seu esplendor, vestindo a pele de Sarah Bernardt, filha indesejada de uma célebre cortesã francesa, que sonhou ser freira e acabou por conquistar os palcos da Europa e dos Estados Unidos como actriz, entre os finais do século XIX e os inícios do século XX. Tal como Mary Lou, também Sarah subiu a vida a pulso, com a ajuda dos deuses e de outros senhores que agora não vêm ao caso, mercê dos seus múltiplos e reconhecidos talentos, chegando a merecer o epíteto de A Divina Sarah.

Sem Mary Lou não há, não pode haver, As Memória de Sarah Bernardt, porque só Mary estaria à altura de tamanha responsabilidade e ela já é só espírito. Mas não será por isso que a terra que viu nascer Mary Lou deixará de lhe render justíssima homenagem. Trêsvoltas não é homem de só ter Fever on Saturday Night ou de usar apenas a cabeça para dar uso à Grease. Uma febril imaginação criativa não parou de fervilhar nas suas meninges que fez explodir um sonoro “eureka!” quando viu Kátinha pela frente, acabadinha de chegar aos States em busca da tia que julgava viva.

Kátinha é o retrato chapado da tia, tão sexy e sedutora quanto ela. E o talento para a arte de representar parece estar-lhe também no ADN. O que lhe falta em experiência sobra-lhe em intuição, em todos os domínios e em qualquer posição, sentada, de pé, deitada, de costas, de perfil... Trêsvoltas não perdeu tempo. A sobrinha de Mary Lou ainda é demasiado jovem e inexperiente para o papel de Sarah Bernardt, mas tem a idade e o corpinho ideal para encarnar a sua própria mamã, pelo que convocou um dos mais conceituados guionistas da Broadway e lançou mãos-à-obra.

Com recurso a registos vídeo inéditos, onde Mary Lou interpreta na perfeição momentos libidinosos relatados pela gémea Nélinha no seu gasto Moleskine de anotações diárias, a partir das quais foi também construído o guião, Trêsvoltas concebeu um espectáculo que promete arrasar. Sozinha em palco, Kátinha vai reviver As Memórias de Nélinha. Preparem-se, pois, para saber tudo sobre as venturas e desventuras de uma mulher seduzida, enganada, explorada por uns quantos padrinhos por quem distribuiu generosamente o seu amor sem nada pedir em troca.

Dentro de poucos meses, num qualquer teatro perto de nós, em terras lusas, numa digressão organizada por um tal figurão lisboeta com casa arrendada no Porto, que vive numa lufa-lufa e há muito anseia uma boa vida, subirá ao palco um espectáculo que revelará uma grande actriz e desvendará tudo, mas mesmo tudo, tudo, tudo, sobre o triste fim de Nélinha. Talvez agora se faça finalmente justiça e o homem (ou mulher?..) que matou a infeliz patrona dos detectives de domingo seja definitivamente desmascarado e encarcerado numa cadeia de alta segurança. Para sempre!

 

Smaluco

(de partida para a Broadway, onde vai acompanhar os ensaios finais da peça As Memórias de Nélinha, a expensas da secção Policiário do jornal Público)





 

»»» VOLTAMOS, NO PRÓXIMO DOMINGO, 15 DE FEVEREIRO DE 2026, COM A DIVULGAÇÃO DO CAPÍTULO OITO - A Cultura Made In Usa, de: BÚFALOS ASSOCIADOS, DESTE IRREVERENTE ROMANCE POLICIÁRIO.



 

👌 FELIZ Domingo!


📔BOAS Leituras! 

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