🧐 🕵️ Primórdios da Problemística Policiária
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*** 64.ª Edição! 🎓 📖
PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA
PORTUGUESA
POR: DOMINGOS CABRAL - CORREIO POLICIAL
3.ª PARTE - PROBLEMAS N.ºs 11 e 12
CICLO SECÇÃO "PROBLEMA POLICIAL"
- DE A. ARAÚJO PEREIRA
* *
* * *
SEMANÁRIO JUVENIL
“O MOSQUITO”
Problema N.º 11
Lembram-se da viagem que o nosso Inspector Rosan
fez? Aquela em que se esqueceu da chave do receptáculo postal? Pois quando
regressou dessa viagem, a esposa de Rosan comemorou o facto com um chá para o
qual convidou alguns amigos. Entre estes estava o velho Pigmalião, que
regressara de África há pouco tempo e que não resistiu à tentação de descrever
algumas das suas façanhas.
– Uma tarde, – disse ele – durante uma caçada
aconteceu-me a mais extraordinária aventura que podem imaginar. Estava numa das
margens de um rio, quando, ao ouvir um ruído, deparei com um tigre que furioso
avançava para mim.
Aperrei a arma, mas não tive tempo de
disparar porque o tigre saltou sobre mim.
Rápido, como um relâmpago, deitei-me no
chão e a fera, com a velocidade adquirida, foi cair na boca dum crocodilo que
se encontrava no rio, perto da margem. Eu então...
– Basta!, gritou Rosan,
interrompendo-o, – o nosso amigo Pigmalião está a intrujar-nos.
– Que facto levou o
nosso Inspector a não acreditar na narrativa do amigo Pigmalião?
***
Problema n.° 12
1.° - O senhor Malgon vive numa
graciosa vivenda isolada, em companhia de um criado, o fiel João, ao qual uma
tarde dá ordem de lhe arranjar a mala, pois tenciona fazer uma pequena viagem.
2.° - João, ao fazer a limpeza,
encontra uma ponta de cigarro, que o senhor Malgon, por inadvertência, deitou
no tapete.
3.° - No relógio eléctrico, que
funciona ligado à corrente central da vivenda, são precisamente 8 horas e um
quarto, quando ambos saem. No momento de sair, João corta no quadro geral a
corrente eléctrica.
4.° - Malgon, porém, não vai muito
longe, dá a volta e entra cautelosamente em casa. A vivenda está no seguro e
ele pretende incendiá-la para o receber.
5.° - Acende um fósforo, ensopa em
benzina alguns trapos e incendeia-os. Ninguém o observou. Alguns momentos
depois, os transeuntes, vendo o fumo que sai das janelas, dão o alarme. Os
bombeiros acorrem rapidamente e extinguem o fogo, que apenas causou pequenos
estragos.
6.° - Quando João regressa encontra à
porta da vivenda, o nosso célebre Inspector Rosan. Entraram e ao ser
interrogado João declara estar convencido de que o incêndio pode ter sido
provocado por qualquer ponta de cigarro caída no chão, e que saíram ambos às 8
e um quarto.
7.º - Malgon, que se julga a coberto de
todas as suspeitas, regressa tranquilamente a casa. E é enorme o seu espanto
quando Rosan lhe diz:
- Por que razão voltou a casa depois de
ter saído com o seu criado?
Não tendo o criado João dito mais nada
e não tendo sido Malgon observado por ninguém, o que terá induzido o Inspector
Rosan a crer que Malgon voltara a casa?
***
Explicação necessária:
Os problemas que hoje inserimos foram originalmente
divulgados com ilustrações – como a maior parte dos que integraram esta série
do “MOSQUITO”; o n.° 11 com uma gravura, da autoria de “Stuart”, e o n.° 12 com
seis – que lastimamos não poder também reproduzir porque as cópias que
possuímos não reunirem as condições para o efeito. De resto, já na publicação
inicial a qualidade era bastante má...
Amenizará esta impossibilidade o facto
de, quer num quer no outro caso, essas ilustrações não serem indispensáveis de
todo à resolução dos problemas, razão porque decidimos manter a sua publicação.
E assim, vamos às soluções:
Solução do n.º 11
Pigmalião estava a mentir porque... em
África não há tigres...
***
Solução do n.° 12
O que induziu o Inspector Rosan a crer
que Malgon tinha voltado a casa, foi o relógio. Quando saíram, às 8 e um
quarto, a corrente foi fechada e o relógio parou. Quando Malgon entrou em casa
para a incendiar, abriu o quadro geral da electricidade, tendo o relógio
continuado a trabalhar. A hora declarada por João não condizia com a que o
relógio marcava quando Rosan entrou na vivenda.
========
POLICIAL ou POLICIÁRIO?
A questão é-nos colocada por um
leitor: porque, nesta modalidade, usamos o vocábulo policiário em vez de
policial?
Embora já muitas vezes abordada – e
esclarecida – transcrevemos seguidamente o que o reputado linguista Raul
Machado publicou, em Abril de 1954, no Boletim Mensal da Sociedade de Língua
Portuguesa:
“- Digamos desde já que pode ser policial e
policiário, porque um e outro estão bem formados, como estão também os
adjectivos judiciais e judiciários, ao passo que os outros dois, trazidos aqui
ao tribunal da crítica, não gozam de avançada idade.
O adjectivo policial só aparece
registado a primeira vez na 2.ª edição do dicionário de Morais (a 1.ª, de 1813,
não inclui o termo); encontra-se ele depois em todas as edições até à 9.ª (a 10.ª
ainda não chegou a essa palavra, nem sequer à letra P). Os dicionários de
Cândido de Figueiredo e o de Caldas Aulete, muito posteriores ao de Morais,
registam igualmente o termo policial.
Não custa nada afirmar que todos os
dicionários e vocabulários de maior ou menor categoria (foram manuseados para
este fim doze léxicos diferentes, além dos referidos acima), todos, sem
excepção, arquivam o termo policial.
A Enciclopédia Portuguesa e Brasileira
é a primeira publicação lexical portuguesa que regista o termo policiário, em
data bastante recente. Mas note-se que o vocábulo policiário não vem anotado
ali como adjectivo, mas como substantivo, para significar “instituição
restritiva das liberdades sociais ou humanas”; e cita-se, como abonação para a
palavra policiário, um passo de Silva Bastos, pág. 42, da História da Censura
Intelectual em Portugal: “... a Inquisição e o Jesuitismo, os dois famosos
policiários de Contra-Reforma”.
É, pois, lícito inferir que, pela
consulta dos registos vocabulares existentes no País, o adjectivo policiário é
um neologismo de criação recente, ainda não incluído nos léxicos nacionais.
Quem terá criado esse neologismo?
Parece que o termo policiário, como
adjectivo, saiu a primeira vez da mão de Fernando Pessoa, em carta dirigida a
Adolfo Casais Monteiro. No dia 13 de Janeiro de 1935, e publicada na “Antologia
de Autores Portugueses e Estrangeiros - Poesia - Fernando Pessoa”, segundo
volume, pág. 10, onde se lê a seguinte expressão: “novela policiária”.
Criado, esse objectivo novo tem
proliferado largamente em múltiplas expressões, como “problema policiário”, “colecção
policiária”. Formou-se, a par, o substantivo policiário, que entra em frases
como as seguintes: - “uma sátira ao policiário de concepções americanas?” “O
policiário tinha sido desenvolvido em Portugal com e por Reinaldo Ferreira”; “havia
os bons e os maus romances, como no policiário havia bons e maus autores”, etc.
As expressões e frases agora citadas,
com o termo policiário, adjectivo e substantivo, respigaram-se na Separata n.°
4 (vol. 30) da Colecção XIS.
Nesta mesma separata se observa que, a
propósito de uma festa do semanário “Cartaz”, alguém usou, ao microfone e na
representação, dezenas de vezes o termo policial e nem uma só o policiário. Em
outro local, na “História do Conto Policial”, de Vítor Palla, empregando-se com
largueza a palavra policial, acrescenta-se policiário, dizia Fernando Pessoa. O
aparecimento do vocábulo na carta do poeta da “Mensagem” para Casais Monteiro,
a paternidade do termo atribuída a Fernando Pessoa, o uso recente e abundante
da palavra, dão-nos a convicção de que antes de 1935 não havia penetrado no
léxico em Portugal o adjectivo policiário.
Perguntar-se-á agora se o termo
policiário, adjectivo e substantivo, fazia ou faz falta na língua portuguesa,
onde vive, há mais de cem anos, a palavra policial. Notemos, antes de mais
nada, o facto palpável da existência actual de um género novo de literatura de
ficção em que abundam os termos de carácter policial.
Notemos, ao mesmo tempo, que o
organismo policial, incumbido oficialmente e legalmente da investigação
policial não intervém nem directa nem directamente na descoberta desses crimes
de fantasia, nem na sua análise, na prisão dos seus autores, nem na organização
dos seus projectos e julgamentos.
Tais crimes fictícios praticados e
expostos para matar ócios e para aguçar a perspiscácia policial dos leitores,
existem apenas como imitação e elaboração romanceada de casos que poderiam,
infelizmente, ter acontecido, mas, felizmente, só acontecem na fantasia. Não
são, em suma, a exposição da triste realidade como a lemos e vemos em livros,
jornais e revistas, com narrações pormenorizadas de casos vividos, que deixam a
humanidade consternada e perplexa. Boas descrições minuciosas e
circunstanciadas como enigmas a puxar à subtileza e à argúcia, ou como charadas
para desalentar a paciência de Job, reduzem-se, em última análise, à pura
literatura romanesca.
Parece-me, por isso, que à existência
recente desse género literário, ou desta tendência de literatura de ficção, em
livros, jornais e revistas, lhe quadra bem o adjectivo policiário,
recém-criado. Adapta-se perfeitamente essa finalidade literária e serve para
separar dos termos fictícios, romanceados, confirmados à literatura, o aspecto
oficial, legal ou jurídico dos casos reais. Assim, diríamos “história
policiária”, “problema policiário”, “matéria policiária”, enfim, “literatura
policiária”, etc. Isto quanto ao adjectivo.
Quanto ao substantivo... Julgo que este
deveria empregar-se, não sob a forma substantivada do adjectivo, masculino (o
policiário), mas sob a forma do feminino (a policiária); e englobaria a
(matéria) policiária, a (técnica) policiária, a (questão) policiária, a
(literatura) policiária, etc. É, assim, que nós empregamos no feminino, segundo
a tradição linguística, muitos outros termos literários e científicos
provenientes dos adjectivos femininos; a gramática, a técnica, a ética, a
dinâmica, a acústica, a balística, a política, etc. O substantivo policiário,
no masculino, parece que cheira um pouco, embora não tresande muito, a
francesismo (le policier). Ou talvez não...
Seja, porém, como for, eu por mim
inclino-me para o adjectivo biforme, policiário/a, e para o substantivo a
policiária. Mas nas coisas linguísticas quem manda é o uso, que não a
inclinação. Pode dar-se aqui também o que acontece às vezes na moda; a extravagância
e o exagero impõem-se e sobrepõem-se ao gosto.

DOMINGOS CABRAL DA SILVA
»»» Publica-se aos dias 15 e último de cada mês! «««

Saudações Policiárias