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sexta-feira, 31 de julho de 2026

👣 Primórdios da Problemística Policiária Portuguesa »»» PPPP »»» CORREIO POLICIAL - Domingos Cabral ☝ (Re)publicação -- "CORREIO POLICIAL" de: 03.DEZ.2021 3.ª Parte PPPP - A. Araújo Pereira 🕵Problema Policial

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 *** 64.ª Edição! 🎓 📖

 

 

PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA PORTUGUESA

POR: DOMINGOS CABRAL - CORREIO POLICIAL

 

3.ª PARTE - PROBLEMAS N.ºs 11 e 12 

CICLO SECÇÃO "PROBLEMA POLICIAL"

- DE A. ARAÚJO PEREIRA 

 

*  *  *  *  *

 

SEMANÁRIO JUVENIL

“O MOSQUITO”

 


Problema N.º 11

        Lembram-se da viagem que o nosso Inspector Rosan fez? Aquela em que se esqueceu da chave do receptáculo postal? Pois quando regressou dessa viagem, a esposa de Rosan comemorou o facto com um chá para o qual convidou alguns amigos. Entre estes estava o velho Pigmalião, que regressara de África há pouco tempo e que não resistiu à tentação de descrever algumas das suas façanhas.

        – Uma tarde, – disse ele – durante uma caçada aconteceu-me a mais extraordinária aventura que podem imaginar. Estava numa das margens de um rio, quando, ao ouvir um ruído, deparei com um tigre que furioso avançava para mim.

        Aperrei a arma, mas não tive tempo de disparar porque o tigre saltou sobre mim.

       Rápido, como um relâmpago, deitei-me no chão e a fera, com a velocidade adquirida, foi cair na boca dum crocodilo que se encontrava no rio, perto da margem. Eu então...

        – Basta!, gritou Rosan, interrompendo-o, – o nosso amigo Pigmalião está a intrujar-nos.

 

– Que facto levou o nosso Inspector a não acreditar na narrativa do amigo Pigmalião?

 

***

Problema n.° 12

        1.° - O senhor Malgon vive numa graciosa vivenda isolada, em companhia de um criado, o fiel João, ao qual uma tarde dá ordem de lhe arranjar a mala, pois tenciona fazer uma pequena viagem.

        2.° - João, ao fazer a limpeza, encontra uma ponta de cigarro, que o senhor Malgon, por inadvertência, deitou no tapete.

        3.° - No relógio eléctrico, que funciona ligado à corrente central da vivenda, são precisamente 8 horas e um quarto, quando ambos saem. No momento de sair, João corta no quadro geral a corrente eléctrica.

        4.° - Malgon, porém, não vai muito longe, dá a volta e entra cautelosamente em casa. A vivenda está no seguro e ele pretende incendiá-la para o receber.

        5.° - Acende um fósforo, ensopa em benzina alguns trapos e incendeia-os. Ninguém o observou. Alguns momentos depois, os transeuntes, vendo o fumo que sai das janelas, dão o alarme. Os bombeiros acorrem rapidamente e extinguem o fogo, que apenas causou pequenos estragos.

        6.° - Quando João regressa encontra à porta da vivenda, o nosso célebre Inspector Rosan. Entraram e ao ser interrogado João declara estar convencido de que o incêndio pode ter sido provocado por qualquer ponta de cigarro caída no chão, e que saíram ambos às 8 e um quarto.

        7.º - Malgon, que se julga a coberto de todas as suspeitas, regressa tranquilamente a casa. E é enorme o seu espanto quando Rosan lhe diz:

        - Por que razão voltou a casa depois de ter saído com o seu criado?

 

        Não tendo o criado João dito mais nada e não tendo sido Malgon observado por ninguém, o que terá induzido o Inspector Rosan a crer que Malgon voltara a casa?

 

***

 

Explicação necessária:

        Os problemas que hoje inserimos foram originalmente divulgados com ilustrações – como a maior parte dos que integraram esta série do “MOSQUITO”; o n.° 11 com uma gravura, da autoria de “Stuart”, e o n.° 12 com seis – que lastimamos não poder também reproduzir porque as cópias que possuímos não reunirem as condições para o efeito. De resto, já na publicação inicial a qualidade era bastante má...

        Amenizará esta impossibilidade o facto de, quer num quer no outro caso, essas ilustrações não serem indispensáveis de todo à resolução dos problemas, razão porque decidimos manter a sua publicação. E assim, vamos às soluções:

 

Solução do n.º 11

        Pigmalião estava a mentir porque... em África não há tigres...

 

***

 

Solução do n.° 12

        O que induziu o Inspector Rosan a crer que Malgon tinha voltado a casa, foi o relógio. Quando saíram, às 8 e um quarto, a corrente foi fechada e o relógio parou. Quando Malgon entrou em casa para a incendiar, abriu o quadro geral da electricidade, tendo o relógio continuado a trabalhar. A hora declarada por João não condizia com a que o relógio marcava quando Rosan entrou na vivenda.

 

========

 

POLICIAL ou POLICIÁRIO?

        A questão é-nos colocada por um leitor: porque, nesta modalidade, usamos o vocábulo policiário em vez de policial?

        Embora já muitas vezes abordada – e esclarecida – transcrevemos seguidamente o que o reputado linguista Raul Machado publicou, em Abril de 1954, no Boletim Mensal da Sociedade de Língua Portuguesa:

        “- Digamos desde já que pode ser policial e policiário, porque um e outro estão bem formados, como estão também os adjectivos judiciais e judiciários, ao passo que os outros dois, trazidos aqui ao tribunal da crítica, não gozam de avançada idade.

        O adjectivo policial só aparece registado a primeira vez na 2.ª edição do dicionário de Morais (a 1.ª, de 1813, não inclui o termo); encontra-se ele depois em todas as edições até à 9.ª (a 10.ª ainda não chegou a essa palavra, nem sequer à letra P). Os dicionários de Cândido de Figueiredo e o de Caldas Aulete, muito posteriores ao de Morais, registam igualmente o termo policial.

        Não custa nada afirmar que todos os dicionários e vocabulários de maior ou menor categoria (foram manuseados para este fim doze léxicos diferentes, além dos referidos acima), todos, sem excepção, arquivam o termo policial.

        A Enciclopédia Portuguesa e Brasileira é a primeira publicação lexical portuguesa que regista o termo policiário, em data bastante recente. Mas note-se que o vocábulo policiário não vem anotado ali como adjectivo, mas como substantivo, para significar “instituição restritiva das liberdades sociais ou humanas”; e cita-se, como abonação para a palavra policiário, um passo de Silva Bastos, pág. 42, da História da Censura Intelectual em Portugal: “... a Inquisição e o Jesuitismo, os dois famosos policiários de Contra-Reforma”.

        É, pois, lícito inferir que, pela consulta dos registos vocabulares existentes no País, o adjectivo policiário é um neologismo de criação recente, ainda não incluído nos léxicos nacionais.

        Quem terá criado esse neologismo?

        Parece que o termo policiário, como adjectivo, saiu a primeira vez da mão de Fernando Pessoa, em carta dirigida a Adolfo Casais Monteiro. No dia 13 de Janeiro de 1935, e publicada na “Antologia de Autores Portugueses e Estrangeiros - Poesia - Fernando Pessoa”, segundo volume, pág. 10, onde se lê a seguinte expressão: “novela policiária”.

 

        Criado, esse objectivo novo tem proliferado largamente em múltiplas expressões, como “problema policiário”, “colecção policiária”. Formou-se, a par, o substantivo policiário, que entra em frases como as seguintes: - “uma sátira ao policiário de concepções americanas?” “O policiário tinha sido desenvolvido em Portugal com e por Reinaldo Ferreira”; “havia os bons e os maus romances, como no policiário havia bons e maus autores”, etc.

        As expressões e frases agora citadas, com o termo policiário, adjectivo e substantivo, respigaram-se na Separata n.° 4 (vol. 30) da Colecção XIS.

        Nesta mesma separata se observa que, a propósito de uma festa do semanário “Cartaz”, alguém usou, ao microfone e na representação, dezenas de vezes o termo policial e nem uma só o policiário. Em outro local, na “História do Conto Policial”, de Vítor Palla, empregando-se com largueza a palavra policial, acrescenta-se policiário, dizia Fernando Pessoa. O aparecimento do vocábulo na carta do poeta da “Mensagem” para Casais Monteiro, a paternidade do termo atribuída a Fernando Pessoa, o uso recente e abundante da palavra, dão-nos a convicção de que antes de 1935 não havia penetrado no léxico em Portugal o adjectivo policiário.

        Perguntar-se-á agora se o termo policiário, adjectivo e substantivo, fazia ou faz falta na língua portuguesa, onde vive, há mais de cem anos, a palavra policial. Notemos, antes de mais nada, o facto palpável da existência actual de um género novo de literatura de ficção em que abundam os termos de carácter policial.

        Notemos, ao mesmo tempo, que o organismo policial, incumbido oficialmente e legalmente da investigação policial não intervém nem directa nem directamente na descoberta desses crimes de fantasia, nem na sua análise, na prisão dos seus autores, nem na organização dos seus projectos e julgamentos.

        Tais crimes fictícios praticados e expostos para matar ócios e para aguçar a perspiscácia policial dos leitores, existem apenas como imitação e elaboração romanceada de casos que poderiam, infelizmente, ter acontecido, mas, felizmente, só acontecem na fantasia. Não são, em suma, a exposição da triste realidade como a lemos e vemos em livros, jornais e revistas, com narrações pormenorizadas de casos vividos, que deixam a humanidade consternada e perplexa. Boas descrições minuciosas e circunstanciadas como enigmas a puxar à subtileza e à argúcia, ou como charadas para desalentar a paciência de Job, reduzem-se, em última análise, à pura literatura romanesca.

        Parece-me, por isso, que à existência recente desse género literário, ou desta tendência de literatura de ficção, em livros, jornais e revistas, lhe quadra bem o adjectivo policiário, recém-criado. Adapta-se perfeitamente essa finalidade literária e serve para separar dos termos fictícios, romanceados, confirmados à literatura, o aspecto oficial, legal ou jurídico dos casos reais. Assim, diríamos “história policiária”, “problema policiário”, “matéria policiária”, enfim, “literatura policiária”, etc. Isto quanto ao adjectivo.

        Quanto ao substantivo... Julgo que este deveria empregar-se, não sob a forma substantivada do adjectivo, masculino (o policiário), mas sob a forma do feminino (a policiária); e englobaria a (matéria) policiária, a (técnica) policiária, a (questão) policiária, a (literatura) policiária, etc. É, assim, que nós empregamos no feminino, segundo a tradição linguística, muitos outros termos literários e científicos provenientes dos adjectivos femininos; a gramática, a técnica, a ética, a dinâmica, a acústica, a balística, a política, etc. O substantivo policiário, no masculino, parece que cheira um pouco, embora não tresande muito, a francesismo (le policier). Ou talvez não...

        Seja, porém, como for, eu por mim inclino-me para o adjectivo biforme, policiário/a, e para o substantivo a policiária. Mas nas coisas linguísticas quem manda é o uso, que não a inclinação. Pode dar-se aqui também o que acontece às vezes na moda; a extravagância e o exagero impõem-se e sobrepõem-se ao gosto.

 




DOMINGOS CABRAL DA SILVA

 »»» Publica-se aos dias 15 e último de cada mês! «««  

 

 

Saudações Policiárias

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