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domingo, 18 de janeiro de 2026

Mary Lou, Mary Lou? Onde estavas tu? Romance ☝ EFL Dezasseis Episódios Mais Um! Oito Autores 2010 (TPL)

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CAPÍTULO QUATRO

Vox Populi

 


De: Onaírda

 (Eu seja ceguinho…se não é a mais pura verdade!).

A Primavera apareceu tímida e envergonhada naquela altura normal do ano. Um mês depois o mau tempo ainda se tinha agravado. Tempo triste e cinzento. Chuvoso e frio. Mary Lou estava hospedada numa pensão ali para os lados do Príncipe Real.

Regressara dos Estados Unidos na véspera e a sua primeira missão era contactar o detective Tempicos. Não para relembrar as tristes aventuras com que este magano protagonizou com a sua falecida mana Nelinha, mas para tentar saber o contacto de alguém que tinha sido o grande amor da vida dela.

Alguém que a estimou e lhe deu conforto espiritual (e copinhos de jeropiga), porque do resto, a amizade suplantava os desejos concupiscentes e que eram o apanágio das relações anteriores da Nelinha, sua estimada irmã, com outros padrinhos voluptuosos.

Passou por São Pedro de Alcântara, desceu a Rua da Misericórdia e parou no Largo Camões, na esquina em frente à igreja. Foi nesse local que tinha combinado encontrar-se com Tempicos. Ligara para um número de telefone que estava na agenda de sua irmã e localizou o detective. Combinara encontro para essa tarde. Ela iria vestida com uma saia/casaco amarelo e Tempicos levaria um cravo vermelho na lapela do seu casaco.

Quando chegou ao local viu que Tempicos tinha metido água: é que havia duas igrejas e havia centenas de pessoas todas com cravos vermelhos nas lapelas dos casacos. Afinal era dia 25 de Abril e aquela flor era uma constante aos olhos. Parou, inquieta, no meio da multidão efervescente, que ia comemorar um acontecimento e protestava nem se sabia o quê e o porquê.

Sem ela se aperceber aproximou-se um cavalheiro, com o tal cravo na lapela e com um cheiro a brilhantina entranhante. Mas a sua cabeça parecia de bom aspecto. Vestia-se a rigor com as políticas do proletariado. Calças de ganga azul-escuro e blazer vermelho de fecho éclair aberto.

Ele viu que tinha metido água, mas calculou pela certa, que a dama vestida de amarelo era Mary Lou. Experiência de detective. Também mais ninguém vestia de amarelo naquela tarde revolucionária.

- Sou o detective Tempicos, um humilde criado para a servir nos seus ardentes desejos que presumo sejam de vária índole. E eu estou em forma para o que der e vier.

- Sou a Mary Lou. Good afternoon. Desculpe o meu mau português. Sou uma cidadã norte americana dos Estados Unidos. Podemos conversar em algum lado longe desta confusão de frases gritantes trocadas com esgares de bocas de desagrado, mascando “chewing gun”?

- Pois, pois! Vamos até ao Cais do Sodré, um local sossegado e onde só param boas famílias. Entretive-me lá durante muito tempo. Conheço muito bem o local. Dei lá uma tareia num marinheiro que andava a perseguir a sua mana. No final o 112 levou-me para o hospital.

- Very well. It´s all right. I´m glad to know you. Let´s Go!

Mary Lou tinha o caminho aberto para localizar o simpático e romântico Onaírda. Ao fim e ao cabo Tempicos era um papalvo. Tinha sido mais uma vez enganado por uma mulher.

- Podes crer, Onaírda, que o que te contei é a mais pura verdade.

Depois do contacto com o investigador de Sintra, proporcionado (ingenuamente) por Tempicos, seu rival nos procedimentos éticos e morais, mas amigo do peito, Mary Lou encontrou-se com Onaírda num almoço, pago a meias, num restaurante com refeições a 6.00 euros. O tempo é de crise.

Mary Lou, desta forma, terminou o seu longo relato com que mimoseou a paciência daquele, que honestamente e embalado por doces recordações, ficou boquiaberto com a revelação que, surpreendentemente, aquela mulher lhe fez voltar a um passado distante, mas não tão longe, que o impedisse de lhe lembrar tempos felizes que passou.

Onaírda continuava a pensar que águas passadas não movem moinhos, assim como as descidas que aquele malvado Ferrari, corado de vermelhidão celulósica na carroçaria e com jantes de liga leve cheias de mossas, que faziam o bólide ondular no asfalto e, desta maneira, impediam o condutor de adormecer, (tácticas, é o que é!) fazia pelas estradas íngremes que vinham da Serra do Caramulo para Campo de Besteiros, nunca mais se realizariam no sentido contrário nos tempos actuais! Foi aquele malvado bólide que fez com que Tempicos e ele próprio fossem relegados para segundo plano, a partir da altura em que as suas qualidades de Tempicos de “latin lover” começaram a descair, tanto no plano moral como de reprodutor. Mas as suas “patranhas de trazer por casa” continuavam. Já Onaírda foi ultrapassado pela inveja e do mal que dele diziam os seus rivais. - Pois é, amigo Onaírda, disse Mary Lou. Nasci em Grândola, sou gémea da Nelinha. Fomos separadas em criança e eu fui para os Estados Unidos por adopção a um casal que me educou. Depois estudei e fiz a minha carreira na Broadway. Como actriz, como encenadora, ganhei muito dinheiro, mas entretanto nunca voltei a Portugal. Sou, dizem, cara chapada da minha mana Nelinha. A nossa mãe dizem, era cozinheira num restaurante no Canal Caveira e que quando ia para casa à noite só cheirava a cozido à portuguesa que era servido em doses industriais aos clientes a caminho dos Algarves.

Mary Lou continuava a sua narrativa:

- A Nelinha contou-me que se tinha envolvido com um homem perigoso, que era um detective espertalhão (era Tempicos, não haja dúvidas) para as maldades e vinha convencer-me a que eu não voltasse a Portugal e que ela tencionava ficar ao pé de mim, porque nós havíamos de fazer uma boa dupla no teatro. Concordei. Mas um dia a minha irmã recebeu uma carta de Tempicos, que dizia que lhe tinha saído uma fortuna nas rifas da lotaria (que se vendiam no Mercado de Arroios) e veio-se embora. Mas esqueceu-se de uma agenda e lá descobri o número do telefone do Tempicos.

Ficaram por ali naquele dia (na narrativa, claro) e combinaram almoçar no dia seguinte numa de rodízio de peixe ali para os lados do Montijo.

O que Mary Lou contou nesse dia ao Onaírda foi deveras espantoso, mas como este arrazoado está comprido, o resto fica para a próxima. Só que hoje há que esclarecer uma coisa. Tempicos disse que Onaírda punha-se de gatas na sua adega a ver a Nelinha. Nada mais falso e a verdade é esta. Na adega de Onaírda apareceram uns ratinhos anões de cor branca e a Nelinha achava muita graça aos roedores. Então ela punha-se de gatas a espreitar para debaixo de uma mesa para vê-los mais de perto. Enquanto a Nelinha estava naquela posição, Onaírda olhava para o lado, mas de olho aberto e assobiava uma melodia muito em voga, assinada pelo Quim Barreiros, cuja letra não vou agora aqui apresentar dado que temos senhoras no nosso auditório e aqui nesta história o mal-educado só pode ser o Tempicos!

 

Voz do Povo, voz de Deus. Voz de Tempicos, voz do Diabo! Telefona-me agora o Tempicos a saber se eu sei o dia em que Mary Lou regressou a Portugal. De amnésia é que ele agora padece! De mim não sabes mais nada!


 








 

»»» VOLTAMOS, NO PRÓXIMO DOMINGO, 25 DE JANEIRO DE 2026, COM A DIVULGAÇÃO DO CAPÍTULO CINCO - Haja decoro e fale-se verdade. Há que enterrar os mortos e cuidar dos vivos, de: NOVE, DESTE IRREVERENTE ROMANCE POLICIÁRIO.



 

👌 FELIZ Domingo!


📔BOAS Leituras! 

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