🧐 🕵️ Primórdios da Problemística Policiária Portuguesa...👣👣 🔍
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PRIMÓRDIOS DA PROBLEMÍSTICA POLICIÁRIA PORTUGUESA
2.ª PARTE - CICLO L. FIGUEIREDO
* * * * *
SECÇÃO “O LEITOR É SHERLOCK HOLMES?”
P R O B L E M A S P O L I C I A I S
O leitor é
Sherlock Holmes?
COMO OS GRANDES POLÍCIAS DESCOBREM
OS CRIMES MAIS MISTERIOSOS
QUERE O LEITOR FAZER DE «DETECTIVE»?
SECÇÃO “O LEITOR É SHERLOCK HOLMES?”
7.º PROBLEMA:
O FAROL MISTERIOSO
Seja-nos hoje permitida uma pequena digressão pelos casos policiais que teem apaixonado a opinião pública da Norte América, apresentando aos leitores o problema que intitulamos "O Farol Misterioso" que julgamos digno da sua atenção.
Em Dead Man's Harbor, na baía de Fundy, há um pequeno povoado com duzentas almas, aproximadamente. Na preamar fica uma península rochosa a cinco metros acima do mar, mas como as marés chegam a ter aqui uma diferença de nível de aproximadamente 10 metros, na baixa-mar apresenta-se sobre um promontório que emerge 15 metros das águas, ficando também a descoberto a ilhota, em que está construído o farol e que tem 11 metros acima da restinga de areia que a liga à terra firme.
Na baixa-mar, e durante 40 minutos, pode-se atravessar da aldeia para o farol a pé enxuto usando as escadas de ferro que dos dois lados permitem vencer o desnivelamento.
Na noite do desaparecimento do faroleiro Williams a praia-mar foi às 11 h. e 51 m., isto é, depois de o ajudante Cubb se retirar para casa, no povoado.
O sinal acústico começou a funcionar pouco antes das 11, quando um nevoeiro cerrado envolveu o porto e ouviu-se, durante toda a noite, com lúgubre isocronismo.
Na manhã seguinte Daniel Cubb foi render o superior, descendo a escada do penhasco e atravessou a restinga a caminho do farol. Notou, porém, que na areia húmida, mas dura havia um largo sulco pouco fundo, rasto de uma tábua de 15 polegadas. Este sulco começava ao pé da escada de ferro da aldeia e ia até às 'ribas da ilha do farol.
O ajudante entrou no farol às 6 h. e 1 m. da manhã. Subiu a escada e chamou pelo chefe, admirado que ele não viesse ao seu encontro como se costume. Procurou por todos os recantos sem lograr encontrá-lo. Correu à barraca do escaler e não viu sinal que dele se houvessem servido. Os remos arrumados e secos confirmavam que não fora utilizado.
O ilhéu é pequeno, completamente coberto de relva e tem noventa metros de diâmetro, sem qualquer esconderijo.
O ajudante de faroleiro dirigiu-se ainda às escarpas e nem na rocha lisa nem na areia húmida e tão denunciadora que cercava o ilhéu por todos os lados havia qualquer vestígio, além do sulco que observara anteriormente.
Pediu então auxílio aos habitantes da aldeia e com eles percorreu novamente o ilhéu e o farol sem achar indícios novos, sinais de luta ou crime.
É de notar que o ajudante Cubb não se podia tornar por qualquer forma suspeito. Por ser bem conhecida a sua seriedade e excelente caracter assim como a amizade que dedicava ao chefe.
O sinal acústico de nevoeiro ainda-funcionava apesar de ter clareado o tempo alguns minutos antes da baixa-mar, e o motor que necessitava de ser abastecido de 2 em 2 horas ainda tinha gasolina bastante para trabalhar 1 hora, às 6 e 5 minutos, quando o ajudante o examinou.
Às 6 e 20 a maré já enchia rapidamente.
Fez-se à pressa nova observação inútil ao sulco agravado na areia para se ver se próximo dele haveria quaisquer pegadas.
À maneira que as horas passavam o mistério adensava-se, inexplicável e embaraçoso e para alguns pescadores e marítimos tomava já aspecto sobrenatural.
Não constava que o faroleiro chefe tivesse inimigos, apesar de misantropo e pouco popular. O desconhecimento da sua vida anterior não o impediu que durante 11 anos fosse respeitado como membro da comunidade de que fazia parte.
Aonde estaria, pois? Que lhe teria sucedido?
Ninguém se atrevera a aventar a hipótese que funcionário, escravo do dever como ele, abandonasse o lugar sem qualquer explicação.
Admitindo que se tratasse de crime não era crível que o assassino tivesse transportado o corpo até próximo da aldeia, subido com ele as escadas, para ocultar em qualquer ponto arborizado e solitário das proximidades.
A busca feita nos arredores também não deu resultado.
Nesta ocasião veraneava nas proximidades M. Jacques, um antigo "detective" da "Soureté Générale" francesa onde prestara relevantes serviços e que se celebrizara na descoberta de um crime retumbante praticado em Marselha.
Tendo-lhe constado o desaparecimento do faroleiro Williams ofereceu os seus serviços às autoridades locais que de bom grado as utilizaram e depois de examinar o cenário do local provável do crime, ouvir testemunhas e tomar em consideração o que expusemos, deixou todos boquiabertos quando afirmou: "Assassínio premeditado e perpetrado com todas as precauções".
M. Jacques acrescentou com segurança que o crime tinha sido praticado por alguém que o planeara cautelosamente e descreveu as circunstâncias em que se devia vir a encontrar o cadáver do faroleiro, acrescentando pormenores interessantes da tragédia.
Daí a 15 dias confirmaram-se as suposições de M. Jacques quanto à descoberta do cadáver e o misterioso assassino do faroleiro foi preso devido simplesmente ao acaso pela polícia de Scraton, no estado na Pensilvânia.
Pergunta-se:
1° - Como concluiu o "detective" francês que houvera crime?
2° - Como se chegou o assassino à ilha?
3° - Como se desembaraçou do cadáver do faroleiro?
4° - Como deixou a ilha depois do crime?
5° - Quais as probabilidades a admitir a propósito da descoberta do corpo do faroleiro Williams?
L. FIGUEIREDO
SOLUÇÃO DO PROBLEMA:
1° - Duas únicas formas havia para e-plicar o desaparecimento do faroleiro Williams; desertara ou fora vítima de cri-me. M. Jacques inclinou-se para a hipótese de crime, justificando a sua opinião com facto manifesto de que, quem vier da ilha na baixa-mar, tinha propositadamente feito desaparecer as pegadas da areia arrastando sobre elas uma tábua. Esta suposição era ainda confirmada porque se a tábua tivesse sido levada casualmente devia haver pegadas de quem a trouxera e, não aparecendo estas, era sinal de que se pretendera fazê-las desaparecer. Como o escaler estava na ilha, era certo que não fora utilizado pelo faroleiro para se ausentar e, não tendo este sido visto no povoado, não desaparecendo por esse lado. Tratava-se, pois, de crime, vendo-se (adiante como o assassino se desfez do corpo e corno desapareceu.
2° - O assassino devia ter chegado à ilha num bote no começo da praia-mar quando o nevoeiro já estava cerrado e, com todas as probabilidades, pouco antes das 11 horas.
3° - O assassino desembaraçou-se do cadáver do faroleiro abandonando-o dentro do barco em que se transportara à ilha a remos e na baixa-mar para que fosse levado para o largo. Planeara talvez levá-lo consigo no bote para o deitar ao mar, mas desistiu por recear perder-se no nevoeiro.
4° - O assassino foi da ilha a pé pela restinga de areia aproveitando a baixa-mar, arrastando a tábua atrás de si para desfazer as pegadas e não ser descoberta a direcção que levava. Era a única forma de não se perder devido ao nevoeiro.
5° - O corpo do faroleiro deveria ser encontrado no barco por qualquer navio ou ao longo da costa pelos pescadores. Passados 15 dias sobre o assassínio assim sucedeu, tendo-o recolhido o vapor de carga "Water Nymph", verificando-se que a morte fora provocada por tiro no coração. O bote tinha o nome cuidadosamente coberto por uma camada de tinta que a polícia fez desaparecer, descobrindo a palavra "Dodger". Este nome pouco vulgar permitiu encontrar o dono. Veio a saber-se que este era o marinheiro Jacobs, que navegara há mais de 12 anos sob as ordens do faroleiro, nesta ocasião oficial da marinha mercante, sendo então sido cabeça de uma sublevação a bordo que William dominou energicamente. Jacobs fora preso nessa ocasião a ferros e cumprira dez anos de prisão. Confessou, quando interrogado, que, desde o momento em que fora preso, jurara vingança no seu íntimo, pensando sempre na libertação para liquidar quem julgava que o perseguira. A morte do faroleiro William levou-o à cadeira eléctrica.
* * * * *

DOMINGOS CABRAL DA SILVA
»»» Publica-se aos dias 15 e último de cada mês! «««





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